Cabra da peste

Amigos do Sul se insurgem contra minhas origens porque foi o Nordeste que propiciou o segundo turno eleitoral

Por Fernando Dourado Filho, de Estrasburgo (França)

Amigos do Sul se insurgem contra minhas origens porque foi o Nordeste que propiciou o segundo turno eleitoral, revela Dourado

Sou fascinado pela capacidade do ser humano de se adaptar às circunstâncias mais adversas. Quantas vezes não descarregamos na recepção de um hotel uma queixa atrás da outra? O ar condicionado está zumbindo, o blecaute não veda, a televisão congela a imagem e o wi-fi não conecta. Dias depois, porém, tudo isso estará metabolizado e, bem ou mal, achamos uma forma de lidar com os desconfortos, tirando até certo prazer em voltar ao apartamento. O mesmo se dá com as pedradas que se leva. Adolescente, era péssimo aluno de francês. Então, o amor pelas músicas de Aznavour me tiraram do limbo. Avesso a normas que me pareciam burocráticas e paralisantes, me insurgi contra muitas das que encontrei nas empresas por onde passei. Não me arrependo porque foi assim que mudei a vida das pessoas, propiciando-lhes ver o mundo por um prisma mais original. E tome gosto pela luta porque é extenuante nadar a contracorrente. Mas a gente se acostuma. 

É claro que não se pode ter medo de cara feia. Senão, vejamos. Do domingo para hoje, venho sendo apupado pela identidade nordestina. Amigos do Sul, região onde vivo desde adulto, se insurgem contra minhas origens porque foi o Nordeste que propiciou o segundo turno eleitoral. Sendo de Garanhuns, os grunhidos reverberam pelo fato de minha cidade ser também o berço natal de Lula. Ora, não devo explicações a ninguém. O Nordeste é sabidamente pobre e a grande maioria das pessoas é desqualificada para afrontar as durezas de uma economia competitiva. Daí que sem a muleta do Estado, temem cair desvalidas, sem hoje nem amanhã. É normal que haja uma veneração por todos os que acenem com esperança, por finória que seja essa indústria. O lenitivo de hoje e a garantia do óbulo, aplacam a dor da miséria. Não ser como eles não me dá o direito de ignorá-los.  

Por outro lado, reconheço essa mesma confusão mental em quem vê no candidato chamado de Direita – uma injustiça para com ela, mas vá lá – a salvação da treva petista. Alto lá. Essa história de misoginia, homofobia e racismo simplesmente não é pauta coerente com nossa agenda maior. Seria como se favelados discutissem de que tamanho será a piscina da casa que terão um dia, quando não têm sequer água para lavar a louça. Portanto, jamais baixaria a cabeça por ser quem sou ou como sou, mesmo porque ambos os candidatos são circunstanciais, fruto de um momento de desvario, por um lado, e de cálculo político ladino, de outro. A honra que tenho em ser nordestino paira acima do padrão binário do Brasil de hoje e, sobretudo, dessas anomalias políticas que o destino nos legou. Portanto, joguem suas pedras que já estou acostumado. Adaptação é comigo mesmo.   


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comentarios




Agomar Aliatti

Parabéns pela sobriedade. Excelente texto!

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