A viagem dos símbolos

Roupas doadas para a África são vendidas a preços altos na Europa. Por quê?

Por André D´Angelo

Roupas doadas para a África são vendidas a preços altos na Europa. Por quê?

Jean Baudrillard gostaria de saber desta. 

O filósofo francês notabilizou-se, no início da década de 1980, por descrever a sociedade de consumo como um grande mercado de símbolos e imagens. No estágio em que já se encontrava o capitalismo à época, a função prática dos produtos, segundo ele, era apenas o pretexto para compras calcadas em elementos abstratos – especialmente o significado da mercadoria no contexto social. Daí que alguns produtos tivessem preços aparentemente acintosos frente aos seus custos de produção; cobrava-se não pelo objeto em si, e sim por sua representação no imaginário.

Pois bem: um comerciante francês chamado Amah Ayivi percorre os mercados populares de países africanos em busca de pechinchas, que podem ser desde artesanato até bijuterias e roupas. Esses produtos, vendidos a preços baixos, são oriundos de doações ou comprados de segunda mão pelas lojas, e cumprem o objetivo de abastecer o paupérrimo consumidor local. Ayvi escolhe as mercadorias que lhe interessam e, em sua loja parisiense, revende-as com sua própria marca, como produtos vintage, a preços bem mais salgados do que aqueles praticados nos feirões africanos.

“O valor das peças muda com a mudança de contexto”, afirma o New York Times na matéria a respeito de Ayivi (aqui). Aquilo que o Times chama de “contexto”, Baudrillard chamaria de “sistema de símbolos” ou algo do tipo, provavelmente.  E, muito embora o jornal provavelmente esteja utilizando a palavra “valor” como sinônimo de “preço”, marqueteiros sabem se tratar de conceitos diferentes – mas que, nesse caso, podem ser incorporados à mesma palavra: o benefício, a importância e o significado que a mercadoria tem na África e em Paris – seu valor, portanto – diferem enormemente, o que acaba se refletindo em seu preço.

Por quê? Possivelmente os franceses vejam nas peças vindas do Togo, da Nigéria e de plagas afins como “exóticas”, “originais” e “autênticas”, para usar alguns adjetivos bem ao gosto do mundinho da moda, ou simplesmente diferentes daquelas que encontram nas lojas convencionais. Enquanto isso, para os africanos, trata-se tão somente de panos para cobrir o corpo.

O mais curioso é que as roupas de segunda mão que chegam à África podem ter vindo, em tese, de qualquer lugar do mundo – inclusive da Europa e da França. O que significa dizer que parisienses e turistas desembolsam quantias elevadas para adquirir peças que talvez estivessem no guarda-roupa do vizinho meses ou anos atrás – e que se tornam subitamente interessantes depois de viajar para um continente pobre e ser repatriadas por um comerciante de verniz retrô.

Pois é, o “sistema de símbolos” a que Baudrillard se referia também é repleto de ironia.


leia também

África negra e culpa branca - Os próprios africanos reconhecem a complexidade do dilema e o simplismo de algumas visões

Carne Fraca já afeta vendas do Brasil no exterior - O país enfrenta cancelamentos de pedidos da China e da Europa

Lesbos e o Nobel da Paz - O que singulariza o pedido é que os gregos passam por um momento dramático e mostram que sempre cabe mais um no coração

Moda, modismo ou tendência? - Saiba a diferença entre esses três fenômenos que afetam quase todos os mercados

O mais novo xodó da Europa - A comunidade de negócios percebe claramente que o pior ficou para trás. E que o futuro sorri para Portugal

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: