O Brasil não vai acabar

Que cada um cultive seu jardim de delícias para suportar melhor os baques. Estes virão, mas aqueles também existem

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho comenta o quadro eleitoral brasileiro

É próprio do momento dramático que vivemos magnificar as consequências funestas que traria ao país a vitória de sicrano ou de beltrano. Negar este truísmo é dar prova de certa ingenuidade, como se a pessoa não se desse devidamente conta de quão grave é a situação. Admitir, ainda por cima, que o Brasil é maior e mais forte do que um governo acuado e histriônico – como parece ser o caso das alternativas que o eleitorado nos servirá –,é fazer o jogo do adversário. Assim sendo, entre o fim da democracia e a venezuelização, até as pessoas mais serenas começam a se contaminar pelo negativismo mais atroz. Já vi pessoas cancelarem seus planos de férias, programarem demissões em massa e até se prepararem para viver fora. 

Pois bem, de sexta-feira para hoje, segunda-feira, resolvi dissipar essa nuvem negra que teima em pairar sobre nossas cabeças e pensar que, bem ou mal, temos uma sociedade civil minimamente organizada, uma imprensa madura e um padrão de inserção internacional que, embora tímido para o que poderíamos ter, nos compele a obedecer a um mínimo de decência. Assim sendo, embora estejamos confrontados com duas opções sumamente medíocres e algo vergonhosas, há de se levar em conta que, até por força disso, elas estarão o tempo todo tuteladas. Pois de um lado temos um partido que mesmo quando esteve no poder, jamais prescindiu da garimpagem de cabeças pensantes que dessem substância à insustentabilidade de seu discurso. 

Do outro lado, a tutela pode até nos levar à extrapolação de um Parlamentarismo de fato, simplesmente porque o Presidente seria uma entidade etérea e simbólica, sem qualquer organicidade partidária. Teria, ademais, que pedir de pés juntos aos quadros mais qualificados do Brasil para emprestar sua credibilidade a um governo onde o inquilino do Alvorada seria mero figurante de pífias funções de representatividade e que, como o tempo, até pelo desconforto que lhe inspirariam, seriam delegadas a outras instâncias, como fazia até pouco tempo a  primeira e última Presidente que tivemos. É claro que se não tivéssemos que optar entre o aparelhamento e o populismo raso, seria melhor. Mas é um pouco nossa sina de país imaturo. 

Tendo voltado do Nordeste depois de quatro dias intensos por lá, confesso que fiquei combalido de ver o estado de ânimo desolado das pessoas com a polarização que se anuncia. Não falo de militantes que tiram disso o ganha-pão e que esfregam as mãos à espera de reeditar os dias felizes em que se prevaleciam da licenciosidade dos compadres para viver em grande estilo. Tampouco dos raivosos que se viram do dia para a noite imantados de fobias dignas dos primórdios da Guerra Fria. Falo do homem e da mulher de boa vontade, educados em bons princípios e que julgaram um dia que podiam viver a vida à margem desses transbordamentos. A eles, é tempo de dizer que as pessoas passam e o país fica. E quem em 2022 teremos novas eleições. 

Que cada um cultive seu jardim de delícias para suportar melhor os baques. Estes virão, mas aqueles também existem.  


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