Derrotas gloriosas

A sociedade reduzirá o Estado a mero coadjuvante dos processos de transformação e governança dentro de mais uma década

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

A sociedade reduzirá o Estado a mero coadjuvante dos processos de transformação e governança dentro de mais uma década

Ao que tudo indica, caminho a passos largos rumo a mais uma derrota eleitoral. A essa altura, só um milagre daria uma chance a meu candidato de ir para o segundo turno da presidencial. Se conseguisse esse feito, ganharia de qualquer opositor. Mas, como eu temia, ele não passará no vestibular do primeiro turno, o que é uma lástima. Nesse contexto, já conformado com o fato, vejo com certa desolação o panorama eleitoral e fico na torcida para que haja pelo menos uma renovação no Congresso, o que tampouco parece muito verossímil. 

Mas para quase tudo na vida, temos um antídoto. Veja por exemplo a Copa do Mundo de 2018. A despeito de nossa eliminação, talvez tenha sido de todas a que mais curti. Sem o ônus de torcer para a Seleção, senti-me à vontade para acompanhar outros times com um olhar curioso e menos autorreferente. Foi só assim que aprendi que na Bélgica também pode se jogar boa bola e que terminei me apaixonando pela Croácia e torcendo por ela até o fim. Já na política, estou buscando ainda um fator de consolo e alento muito embora esteja difícil. 

É claro que lá no fundo, a soberba me induz a sentir algum orgulho do naufrágio iminente de meu candidato. Acho que o processo eleitoral tem componentes narcisistas e não estou imune a elas. A derrota dele me coloca numa galeria seleta de gente pensante, daquela que reconhece as limitações da democracia e, consequentemente, das grandes massas em fazer um discernimento acurado de méritos. Papai já dizia isso com certo desalento. Quem mandou eu ter direito a três refeições ao dia há 60 anos? Se todos tivessem tido acesso ao que tive, o país seria outro. 

A bem da verdade, nunca sonhei com o poder redentor de governos. Apesar de vir de uma região onde campeia o assistencialismo e o compadrio político, nunca achei que um programa de governo devesse ter em mente um perfil como o meu, muito menos almejei ser alvo desta ou daquela política. Para mim, avalio um grupo de gestão pelo resultado que ele traz aos menos favorecidos para que, então sim, possamos ter paz social e a dádiva de viver num país respirável. Não preciso que o Estado me dê nada em concreto e nem amarrado aceitaria um emprego público. Simplesmente não é meu mundo. 

Uma coisa é certa: não fico dizendo às pessoas os motivos pelos quais nenhum dos candidatos que estão na frente nas pesquisas me toca. O mais frequente é que fique a contemplar seu entusiasmo e fuja do exame do mérito das propostas (sic) em que, pensando bem, não acredito. No fundo, aquele fervor todo pode ter começado com uma briga de família ou com uma situação em que o eleitor tenha se sentido ultrajado na sua capacidade de discernir. Não por acaso, ambos os candidatos espelham o que pode haver de mais miserável na condição humana, sob quaisquer prismas que se veja. 

O bom da maturidade é que um fator isolado já não nos abala tanto a ponto de vergar as pernas e cair na lona. O mundo tem coisas belas a ser apreciadas e não é por ser brasileiro e ver o país caminhar para o patíbulo que vou deixar de apreciar a beleza das grandes democracias do mundo. Sem ser um otimista patológico, acredito no futuro. Dentro de mais algum tempo, nada mais restará de mim. O que são 20 ou 30 anos na vida de um país? Muito pouco. Mas para mim, são uma eternidade e me compete tirar deles o que de melhor tenham a dar. Em igual medida a meu empenho em dar o que posso. 

Sei que é difícil para muita gente acreditar nisso, mas a sociedade dentro de mais uma década reduzirá o Estado a mero coadjuvante dos processos de transformação e governança. Nessa hora talvez a política volte a me trazer as alegrias da juventude. Não pela sua relevância relativa, mas pelo contrário. Pelo jeito, isso já começou. 


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