Um encontro esperado

O tempo passa e continuo fiel a alguns clássicos restaurantes que nada têm de muito ousados

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Mercearia do Conde, em São Paulo

Com 370 páginas, encontrei nas bancas de jornal a edição anual de "Comer & Beber", da revista Veja São Paulo, uma cobertura de fôlego sobre o parque gastronômico mais exuberante da América Latina. O guia estampa nada menos do que 800 verbetes sobre as mais variadas categorias de comida, e os templos de bom gosto e/ou pés-sujos onde é servida. Sensível à temática da mesa, que adoro, recebo mais esta edição como quem cumpre um rito esperado e não hesito em comprar três exemplares. Um para folhear, outro para a biblioteca e um terceiro para presentear os amigos de fora da cidade, sequiosos por novidades.

Não é meu propósito neste espaço comentar sobre preferências pessoais ou alheias e me aventurar a questionar os méritos e deméritos das cozinhas comentadas. Se houve um tempo em que conhecia praticamente tudo o que a cidade oferecia de bom, hoje seria humanamente impossível opinar com legitimidade sobre gama tão vasta. Mesmo porque tendemos a ficar mais conservadores à medida que o tempo passa, e isso nos desabilita a ser aquele amigo-enciclopédia a que todos recorriam em busca de novidades. E, apesar de o ramo tolerar certo grau de charlatanismo, não pretendo dizer leviandades num terreno tão minado.

Uma coisa, porém, é certa. Muito embora o guia da Veja esteja longe de ser tão sentencioso quanto o Michelin, cujas menções podem levar chefes renomados ao suicídio diante da possibilidade de perder estrelas, gosto de confirmar na última página as chamadas quedas de cotação, ou seja, aqueles restaurantes que perderam em qualidade. Faço-o não por sadismo, mas para constatar se estavam certas minhas impressões. Ali estão também assinaladas as subidas no ranking. Já na página 254, temos uma coluna à guisa de obituário. Este ano, contei cerca de 30 que fecharam, alguns tipificados naquilo que se chama de mortes anunciadas.

Falemos destes últimos. Deixou saudades o América do shopping Iguatemi, que frequentava desde os anos 1980 e onde gostava do hambúrguer vegetariano de quinoa com molho inglês. Foi-se também a Compagnia Marinara que ficava nas imediações da Praça Panamericana, e lá vivi bons momentos. O Galeto´s da Alameda Santos era uma opção simpática quando tinha pouco tempo, muito embora a qualidade da rede venha despencando vertiginosamente há muito tempo. Não me surpreendeu que o Italy tenha fechado as portas. Eis um restaurante que começou muito bem, mas que perdeu a personalidade gastronômica em poucos meses.

Duas fiiiais do Le Vin Bistro também encerraram as atividades, a saber em Higienópólis e no shopping Morumbi. Ficarei feliz enquanto a dos Jardins permanecer em funcionamento. Tampouco surpreendeu o fechamento do Tartar&Co, cujo modelo de gestão pelo jeito era caótico. O La Central já foi tarde. O que me surpreendeu foi a subida para 4 estrelas do Chef Rouge, cuja trajetória me parecia previsível e imune a novidades. E quem conhece sabe que o Kinoshita mereceu subir no ranking, muito embora os preços sejam proibitivos. Era capaz de jurar que o Due Cuochhi Cucina estava para perder uma estrela, e isto aconteceu.

Quem também perdeu uma posição foi o Mondo, que vem tendo bom desempenho num endereço problemático onde, historicamente, nada dá certo há décadas. O Bárbaro e o L´ Entrecôte de Paris passaram para duas estrelas e sinto que o segundo pode fechar porque vive vazio. O Pomodori já foi ótima referência no Itaim, mas vinha perdendo posição relativa. A fórmula do Spaghetti Notte também vinha acusando exaustão, assim como a Tasca do Zé e da Maria. A Veridiana é cara para o que oferece, e o Vento Haragano é churrascaria para pessoa jurídica e turistas, com sua brigada impositiva e algo empostada.

O tempo passa e continuo fiel a alguns clássicos que nada têm de muito ousados: Arabia, Bistrô Charlô - elegante e delicioso -, Capim Santo, Gardênia, Ici, Jardim de Napoli, La Casserole, Le Jazz, Zena Caffè, Spot, Mercearia do Conde (foto), Rufino´s, Pasquale, Rubayiat, Saj, Taberna da Esquina, Tatini, Tordesilhas e Windhuk. É a algum destes que vou uma em cada duas vezes. Não iria nem amarrado - nem que me pagassem bem - ao Paris 6, uma experiência surreal de breguice e de mau gosto. E dispenso solenemente as massas cozidas e o ambiente que imagino impere na Lellis Trattoria, onde não entro há anos.

Vamos lá, aguardemos 2019. Bon appétit!


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