O jantar de Maduro em Istambul

Que o episódio seja para o povo venezuelano a senha para que ele seja apeado do cenário político mais adiante

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

O jantar de Maduro em Istambul

Um dos grandes mistérios que levarei desta vida para a próxima diz respeito à capacidade de sobrevivência de algumas lideranças em meio ao fogo cruzado das piores circunstâncias. Tempos houve em que fui capaz de jurar que o presidente Assad, da Síria, estava com os dias contados. Isso foi há muitos anos. Sem ousar botar os pés fora do país, Bashar continua no comando e sobreviveu com frieza às maiores provações. Não que isso lhe acrescente mérito algum na escala de valores. A bestialidade continua a mesma, mas a combinação de apego ao poder – mesmo porque fora dele é um homem morto – com a força emocional interior, não deixam de impressionar. Por muito menos do que isso, muitos líderes foram destronados em curto espaço de tempo. No mínimo, há de se lhe reconhecer um profundo domínio das idiossincrasias mais entranhadas na população governada e na mentalidade de inimigos e aliados. Não longe dali, Saddam Hussein imprimiu mão de ferro ao Iraque e não fosse um erro de leitura fatal do panorama internacional, talvez ainda estivesse vivendo os últimos dias em Bagdá. 

Poderia aqui falar de miríade líderes africanos, a começar por Robert Mugabe, que levaram seus países à bancarrota absoluta e sempre tiveram a atitude de quem presidia um pequeno enclave de prosperidade, como se estivesse no rochedo monegasco da família Grimaldi. Mas para nos atermos ao contexto latino-americano, talvez não haja caso maior de sangria de energia do que o da Venezuela. É a cada mês mais difícil imaginar como a situação possa piorar. E, no entanto, ninguém perde por esperar. A inflação já se inscreve hoje nas maiores registradas em todos os tempos; a PDVSA – que já foi uma petrolífera de grande capacidade operativa – está de joelhos e as pessoas estão privadas de comida e medicamento a um nível de inspirar piedade mesmo aos países mais miseráveis e falimentares do mundo. A fronteira norte brasileira registra um afluxo incessante de venezuelanos que chegam dispostos a fazer qualquer coisa para comer. Meninas na puberdade se prostituem por dois tostões e homens e meninos são sujeitos a todo tipo de exploração só para se manter vivos. Quem conheceu este país exuberante nos anos 1980, não pode acreditar no que vê. 

Nesse contexto, não obstante o retumbante fracasso da tal Revolução Bolivariana, Maduro continua deitando e rolando. Depois de hipotecar as reservas petrolíferas do país contra dinheiro que lhe permita espichar a agonia de sua investidura, eis que foi a Moscou e Pequim tentar negociar seu vergonhoso extrato de cheque especial. Os chineses, muito dados à generosidade na hora de dar um pouco mais de corda para enforcado, dessa vez puxaram o freio de mão. Trataram-no com os rapapés próprios do protocolo quase imperial vigente na capital, fizeram declarações de amizade e formularam votos de prosperidade para ambos os povos. Dinheiro que é bom, nada. Ora, se Maduro não consegue sensibilizar o maior dono da banca, aquele que tem por norma fechar os olhos para os abusos infames que se perpetram contra o ser humano em Caracas, o que mais Maduro pretende penhorar, e junto a quem ele vai tentar descontar as duplicatas de seu desmando? Ora, mesmo que o Brasil venha a cair na órbita de seus simpatizantes, haveria dificuldade de reeditar junto a Brasília os muitos abusos de boa vontade que angariou Hugo Chávez, seu desastrado antecessor. 

E, no entanto, as cenas de certo jantar em Istambul devem ter no mínimo deixado muito venezuelano salivando. Pois não é outra coisa que se podia esperar das imagens do corpulento Maduro à mesa do chefe turco Nusret Gökçe, o mundialmente famoso Salt Bae, dono de um restaurante lendário, que dispensou à mesa do presidente agônico os mais suculentos cortes de carne, em meio à profusão de cores e aromas como só lá se consegue produzir. À vontade na condição de figura central das homenagens, Maduro se deixou fotografar de mãos à obra e ainda regalou a comitiva com baforadas de bom charuto cubano, à altura do que merecia o nababesco repasto. Não que eu me alinhe aqui àqueles que dizem que uma conta de restaurante vá quebrar um país. O fato é que mesmo frente à desvalorizada lira turca, a conta que os venezuelanos pagaram certamente equivale à sobrevida de dezenas de cidadãos que naquele mesmo momento vagavam pelas ruas de Maracaibo à procura de atendimento médico para um parente agonizante. Indiferente a tudo isso, Maduro atacou seu steak diante das câmeras como se estivesse ungido de poder de vida ou morte sobre os homens. Como negá-lo?

Nesse contexto, nunca vou esquecer que o Xá do Irã começou a cair com uma afronta similar. Não que seu povo estivesse na miséria. Mas chocou o mundo a festa que ele ofereceu em Persepólis para celebrar os 2500 anos da dinastia persa. Enquanto a polícia política – a temida Savak – torturava os desafetos políticos, ele recebeu a fina flor do jet set mundial para comer ovos de codorna com caviar Imperial do Mar Cáspio, mousse de cauda de lagosta, cordeiro com trufas, faisão assado recheado com "foie gras" e salada de trufas. A sobremesa foi de figos frescos com creme, acompanhados de sorvete de champanhe de framboesa e Dom Perignon rosé, ano 1959,  ultra-vintage. Depois do café – talvez jamaicano –, quem quis tomou Cognac Prince Eugène e, noblesse oblige, profusos charutos para os cavalheiros. Que o jantar de Maduro em Istambul seja para o povo venezuelano o que foi a festança do Xá: a senha para que mais adiante, ele fosse apeado do cenário político. As cenas turcas foram mais um ultraje à empatia e à dignidade. Já não deveria haver no mundo lugar para tanta barbaridade. É uma total falta de vergonha, na expressão literal do termo.  


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