Sabatina no Jornal Nacional

Os espectadores têm elementos suficientes para fazer seu próprio julgamento quando o convidado foge do tema aventado

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Sabatina no Jornal Nacional é o tema do post de Fernando Dourado Filho

Acho que chegamos à primeira unanimidade dessas eleições presidenciais que prometem mobilizar o país nas próximas semanas. Ela aponta para o desagrado geral que suscitam as entrevistas dos candidatos a William Bonner e Renata Vasconcellos. Num raro caso em que os entrevistadores parecem chegar à plataforma mais nervosos do que os próprios convidados, o simulacro de "paredão" distorce os cânones do bom jornalismo. 

Isso porque, exposto a um tribunal inquisitorial, recheado de pontos bizantinos e redundantes, todo candidato que sai dali o faz maior do que entrou. Pois é tamanha a sanha dos entrevistadores em prevalecer, em se sobressair e em levar a melhor, que a simpatia da audiência vai fatalmente para o convidado, seja ele quem for. Ora, sendo o noticioso da Globo uma vitrine tão privilegiada, ainda é tempo que se introduza pelo menos uma modificação vital. 

Nesse contexto, sugiro que os tais 27 minutos de entrevista sejam eventualmente reduzidos para 20. Mas que ele seja de tempo líquido de fala. Ou seja, que no momento em que o convidado silencie, pare-se o cronômetro. Como se faz no futebol de salão ou no basquete. Ou para nos atermos ao terreno da política, como é prática comum nos debates da França, onde um relógio marca a contagem regressiva do tempo disponível de fala para cada candidato. 

Assim sendo, e quem joga xadrez sabe disso, é do interesse dos entrevistados ser econômicos com as firulas porque os minutos podem fazer falta mais adiante, na hora de dar as estocadas finais que galvanizam a militância. O rigor quase deselegante da dupla trapalhona resulta da preocupação legítima de que a entrevista não vire comício. Mas entre isto e a insistência em filigranas que impedem a progressão da fala, vai enorme distância. 

Adotando o tempo líquido, porém, mesmo que William Bonner queira fazer contextualizações quilométricas e engolir noventa segundos do bloco com uma só pergunta – soprada por ponto eletrônico, a nova onda da Globo para coibir inverdades ou meias verdades –, não há problema. O candidato poderá se manter tranquilo porque saberá que seu tempo de exposição não ficará a reboque dos abusos do anfitrião que fala mais do que o convidado.

Isso talvez tranquilize também Renata Vasconcellos, cuja angústia nos contamina todos. Entre caretas, gesticulação tele-dramática e uma indignação muitas vezes pueril e quase simplória, a mudança de regras talvez a liberasse do nervosismo. Muito embora o certo mesmo seria que para as entrevistas a Globo chamasse uma repórter de mais cancha como Renata Lo Prete, para que se chegasse ao pronto nevrálgico sem tanto contorcionismo facial.

Por fim, nunca é demais lembrar a William Bonner que a Pátria agradece penhorada o denodo dele em nos proteger de mentiras e manipulações. Mas saiba ele que os espectadores, aqueles mesmos que veem suas novelas, não são tão idiotas quanto ele pensa que são. E que também têm elementos suficientes para fazer seu próprio julgamento quando o convidado foge do tema aventado. Portanto, um pouco de leveza e cortesia seriam bem-vindos. 

A Globo pode até ser referência mundial em muitos terrenos. Mas neste, não entendo como não vasculham o mundo civilizado em tempo devido para que, baseada em benchmarkings confiáveis, consiga elevar o padrão aos níveis que lhe são comuns em outros espaços da grade, especialmente na dramaturgia. Por fim, Bonner e Renata poderiam abdicar da vontade explícita de ser congratulados pela agudeza e pretensa inteligência das perguntas.

Ou será que ninguém lhes ensinou que certas horas o menos é mais



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