Marcus Rossi: “A revolução tecnológica não tem CEP para acontecer”

CEO da Gramado Summit diz que pequenas startups têm de ganhar voz e que bancos deveriam prestar mais atenção nelas

Por Marcos Graciani

graciani@amanha.com.br

Marcus Rossi, CEO da Gramado Summit, diz que pequenas startups têm de ganhar voz e que bancos deveriam prestar mais atenção nelas

Durante a realização da Gramado Summit, o CEO do evento, Marcus Rossi (foto), apresentou o Summit Hub, empresa que passa a centralizar três produtos: a própria feira que entrará em sua terceira edição em 2019, a Summit Talks e a Start Zero. As duas novas iniciativas atendem a um anseio dos organizadores da Gramado Summit: levar para os quatro cantos do país reflexões aprofundadas sobre empreendedorismo – principalmente na esfera digital. Nesta entrevista concedida ao portal AMANHÃ, Rossi antecipa que Curitiba e São Paulo estarão entre as seis cidades que receberão as Talks a partir do próximo ano. Na conversa que teve com AMANHÃ, Rossi também defendeu que o poder público e os grandes bancos olhem com mais atenção para as startups, afinal, como ele mesmo sentenciou, “a revolução tecnológica não tem CEP nem tamanho para acontecer”. 

Qual seu balanço da última edição da Gramado Summit?
Ela foi muito positiva, pois superou todas as nossas expectativas – mesmo durante o evento. Por exemplo, esperávamos mais ou menos 1.200 pessoas por dia e terminamos com 2.500 nos visitando diariamente. Tivemos 80 investidores, 130 startups, fundos de capital de risco de todos os níveis... Trouxemos pela primeira vez startups já tracionadas, algo que não tínhamos na primeira edição. Foram mais de 60 palestrantes e três dias de imersão no empreendedorismo digital. De 2017 para 2018 crescemos 360% ocupando uma área de 5.200 metros quadrados, espaço enorme se compararmos com os 800 metros quadrados de 2017.

Uma das novidades foi o lançamento do Summit Talks, evento mensal que será realizado em várias cidades do país. Qual é o objetivo da Summit Hub com esse projeto? 
Lançamos a Summit Hub que já nasce com esse projeto e outros mais, além, é claro, da Gramado Summit do próximo ano que está confirmada para iniciar no dia 31 de julho e terminar em 2 de agosto. A feira foi sempre algo inspirador. Sempre pensamos se não deveríamos reunir alguns do palestrantes e fazer com que eles se reunissem com empreendedores para um debate de fundo técnico. Vamos circular o país a partir de janeiro de 2019. Em dezembro devemos anunciar as seis cidades que receberão as Talks, mas posso adiantar que muito provavelmente Curitiba e São Paulo estarão entre elas, pois são locais onde temos público que já nos conhece.

O Start Zero, portal de conteúdo onde os empreendedores podem divulgar suas iniciativas e projetos sem custo nenhum a qualquer momento, também tem uma preocupação com a difusão do conhecimento sobre empreendedorismo?  Como está sendo a adesão?
Em uma semana tivemos mais de mil usuários ativos na plataforma. Tem gente do Rio Grande do Sul ao Piauí. O grande objetivo é dar voz aos empreendedores. Basta que eles nos encaminhem seus releases que o material será publicado na plataforma. Percebemos que o grande salto tecnológico está sendo dado pelo pequenos players e trazê-los para a mídia é algo que pode ser muito benéfico. A revolução tecnológica não tem CEP nem tamanho para acontecer, por isso é necessário dar voz para esses pequenos empreendedores. 

Pode nos dar exemplos dessa revolução tecnológica que tem tomado forma em startups de menor porte?
Ainda em 2017 um menino aqui de Gramado criou a plataforma Jober. O sistema faz busca de todas as oportunidades de emprego baseada em geolocalização, ou seja, é uma espécie de “Google dos empregos”. Ele conseguiu aporte financeiro logo depois da Gramado Summit, depois obteve apoio de mais financiadores e, em breve, vai lançar o serviço nos Estados Unidos. Outra iniciativa é o Speak to Share, plataforma que oportuniza que imigrantes vindos de países desenvolvidos possam lecionar idiomas para as pessoas. É um projeto social, mas ao mesmo tempo tem business envolvido, pois o refugiado pode conseguir uma renda mensal com seu trabalho. Mas há várias outras coisas acontecendo também, como muitos avanços na área financeira com o surgimento de fintechs que estão revolucionando o sistema bancário oportunizando empréstimos entre pessoas físicas. 

Em suas viagens pelo Brasil afora, há muita reclamação por parte de gestores de startups por causa da falta de linhas de financiamento próprias oferecidos pelos bancos ou mesmo por instituições de fomento?
Vejo um afastamento muito grande do poder público, muito em função de não existir um entendimento por parte dos políticos sobre a importância das startups para a nova economia. Há falta de benefícios por parte dos grandes bancos, pois eles ainda não conseguem entender o potencial desses jovens empreendedores. Por essa razão, nenhuma das startups busca solução no nível público. Elas já optam por ir diretamente para a iniciativa privada, apesar de que no cenário atual tem alguns incentivos interessantes surgindo através de pesquisa. O Sebrae tem um projeto muito legal chamado Sebrae Like A Boss, a ABDI, a Inovativa Brasil, todas elas dando condições para o desenvolvimento de startups. Na minha opinião, os bancos somente se preocupam em oferecer financiamento para startups já muito grandes e bem desenvolvidas, o que é um erro, pois a grande mudança vira de pequenos players. 

Há algum segmento específico de startups que tem atraído aportes dos fundos?
As duas frentes que mais atraem o olhar dos investidores são a área de saúde e as fintechs. 

Tem se falado muito também nas agrotechs. O segmento agrícola está realmente ligado nessa tendência ou existe ainda alguma barreira cultural?
Eu acho que existe muito oportunidades para agrotechs, pois é um negócio basicamente do Brasil que é fortemente agrícola. Talvez possam ter grandes revoluções nesse campo, mas não se enxerga hoje startups voltadas para o agrotech. Elas não são tao populares quanto as fintechs, por exemplo. Talvez eu conheça umas três ou quatro agrotechs, enquanto no Brasil a cada semana surgem milhares de fintechs.  

Na sua avaliação, como está o nível de empreendedorismo no Sul?
Temos muita força e vontade de mudar o status quo. O desafio é ainda maior no Rio Grande do Sul, um estado industrial que parou no tempo. Mas vemos outras frentes surgindo e colocando o estado em um novo patamar transformando o Rio Grande do Sul em um polo de tecnologia. Há necessidade de colocar o empreendedorismo digital gaúcho nesse mapa, pois cidades como Recife (PE), Belo Horizonte (MG) e Florianópolis (SC) estão muito bem desenvolvidas nesse campo. 

E como os fundos de investimentos de startups analisam as oportunidades no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul?
Conheço grandes fundos de Santa Catarina que estão aportando recursos na região. O BRDE e o Badesul estão investindo na área. Curitiba também é uma cidade muito preparada e interessante nesse sentido. Porém, é precipitado pensar que é preciso sair do ambiente onde uma startup nasceu para conseguir atrair investidores. O negócio, por si só, já nasce enxuto e com potencial de ganhar escala, por isso pode manter o empreendimento nas bases onde começou. A localização não é um problema para atração de fundos de investimento. 


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