Homem antigo - Parte II

Eis um glossário que pode levar o publico feminino a entender as limitações de certo remanescente da tribo masculina

Por Fernando Dourado Filho, de Chicago (EUA)

Fernando Dourado Filho continua contando que não se dá bem com tarefas domésticas

Não gosto de deixar as tarefas incompletas. Assim sendo, se na quarta-feira tivemos um alentado histórico de tudo aquilo que faz deste escriba um homem bastante datado e pouco compatível com os tempos digitais e de sociedade em rede, quando não jurássico para alguns, é melhor ir até o fim e tirar de vez a máscara da virtude. Pode ser que só assim eu melhore da dor na coluna que começa a despontar como a grande algoz dessa década que se inicia. Sendo assim, vamos a novos episódios reveladores de minha inépcia. Mais do que um ato de flagelação a céu aberto, trata-se de um pequeno glossário que pode levar o publico feminino a entender mais as limitações de um certo remanescente da tribo masculina que veio ao mundo nos anos 1950-1960, mormente no coração do Nordeste do Brasil. Não que todos sejam tão inaproveitáveis, bem entendido.  

Assim, peçam-me sem medo para escrever um trabalho de TCC que eu sou capaz de dar um empurrão surpreendente no espaço de uma só manhã. Mas nunca, jamais, me peçam para forrar uma cama. Das vezes em que estive hospedado em casas de cerimônia, mas que não tinham empregada no fim de semana, já dormi no chão para não revirar o edredom, lençóis e cobertores. Uma vez tentei botar uma fronha num travesseiro e desisti. Simplesmente coloquei-a em cima do dito cujo, como uma toalha numa mesa. Não atinei para que o buraco do encaixe ficava no meio, sob uma prega, e não na ponta, tipo saco, como eu procurava. Depois de uma noite no carpete, colhia elogios da dona da casa: "Ah, se meu marido soubesse fazer uma cama assim. Vou até chamá-lo para ver". Humilde, eu sorria. 

É desesperadora minha confusão mental diante dos vasilhames para diferentes tipos de lixo. Eu sempre acho que tudo é relativo. Casca de banana é lixo orgânico? Teoricamente é. Mas por que não colocar na lata de recicláveis? Não fazem todo tipo de coisa com casca de fruta? Não foi um farelo desses que João Doria (argh!) queria introduzir na merenda escolar de São Paulo, e que até provou? Eu só sei distinguir papel de jornal e revista, e garrafa. Para o resto, eu peço ajuda. Por mim deveria ter um quarto recipiente marcado "Dúvidas/Híbridos". Tempo desses comi umas mexericas enquanto trabalhava. Sem saber onde jogar as cascas, aterrorizado pelas sanções impostas naquela pequena comunidade alemã, botei-as no bolso do blazer. Um mês depois entendi porque o guarda-roupa estava com aquele cheiro esquisito. 

Outro terreno em que sou sofrível é na hora de tirar manchas. Se cai um pinguinho de molho de tomate na camisa ou na gravata, gosto que a garçonete traga na hora água quente e/ou spray, e que ela se aplique em isolar a área, pegando o tecido por dentro, e deixando tudo como antes em dez minutos. Quando simplesmente me trazem a lavanda, umedeço uma superfície muito grande da toalhinha. O pingo logo vira do tamanho de uma mão espalmada. Ainda à mesa, se me trouxerem um prato mal apresentado, com as bordas da travessa manchadas de molho, vou dizer que comi uma enormidade no café da manhã e que estou totalmente sem fome. Se a desculpa não colar, alego que estou fazendo uma dieta draconiana e sussurro: "O médico falou que é fazer ou morrer". 

Nunca me peçam para sintonizar televisão se ela tiver mais de um controle remoto. Uma vez num jantar, me encarregaram de achar o canal de música. Tinha pelo menos quatro controles espalhados pelo sofá e uma bateria de equipamentos integrados que mais lembravam o painel de comando de um Airbus 380. Sem querer mostrar amadorismo, resolvi me guiar pela intuição, tentando fazer como as crianças que mexem naquilo como se tomassem água. O resultado foi que, sem querer, evidentemente, sintonizei num canal de filme pornô. Em pleno jantar, os seis casais se assustaram com o emaranhado de bocas, vulvas e pênis eretos que dominavam a tela em meio a gemidos quase suínos. Muitos devem ter pensado que nosso jantar não seria tão inocente quanto parecia e que os cabides para pendurar as roupas estavam a caminho. 

Nunca me apresentem gente de menos de 30 anos em festas de casamento, esteja eu sóbrio ou já um pouco animado. Para mim, todos eles têm a mesma cara. Aquelas moças mais parecem que foram ao mesmo cabeleireiro, ao mesmo maquiador, ao mesmo costureiro e que têm em comum o mesmo dentista, além da pose meio idiota. Naquelas fotos de meio de festa, é impossível distinguir quem é quem. Os caras também: todos de terno escuro, barba, cabelos ao vento, e sem maior traço de identidade (salvo se tiverem um olho esbugalhado, um tique nervoso). Sempre digo a quem estar comigo: "Se eu já os conheço, dê a ficha rapidinho que estão chegando". Se a informação não chegar, abro os braços: "Meus queridos". Depois ouço: "Você não os conhecia. São primos distantes do noivo e estão aqui pela primeira vez". Paciência.

Tolero, mas não gosto, de mulher que fica de muita confabulação com o garçom. Isso confunde os caras e se rompe uma cadeia de comando. Quando menos se espera, lá vem o homem com as entradas duplicadas. Em vez de lula frita vem camarão com casca, ou vice-versa, e os pratos de repente não chegam porque o garçom entendeu que o casal iria se servir do bufê e que a consulta de madame tinha sido mera curiosidade. Quer comandar a mesa, muitas vezes com muita gente? Então já a designo como porta-voz e passo meu pedido diretamente a ela. O que pode gerar confusão é a duplicidade. Em nenhuma hipótese, acho recomendável a delegação da repartição da conta, se for o caso. Contas de restaurante são álgebra, não aritmética. Muitas vezes tem gente que está passando apertos, que quase não bebeu, e tudo isso tem de ser pesado em silêncio. 

Quando  viajo, o que acontece muito, dou meu endereço aos próximos e quem quiser suas coisas que compre pela Amazon e mande me entregar no hotel. Só atendo pessoalmente mesmo as encomendas de remédio e livro, para os quais não poupo esforços. Se querem me ver no inferno, me encomendem um telefone, um iPad, iPod (existe ainda?), um laptop ou similares. Na verdade, nem compro e já digo de cara que não é minha praia. Não me peçam nada relativo a carro – sequer para que o leve no posto para abastecer porque posso botar diesel em vez de gasolina, o que já aconteceu –, e não é prudente pedir coisas específicas de supermercado porque termino trazendo tudo em excesso, em variedades que muitas vezes não integravam nem de longe o pedido original. Nunca, jamais, produtos de limpeza. Só comida e bebida.  

Como penúltimo item, não me chamem para aniversários, festas e comemorações. Especialmente em se tratando de ambientes onde o barulho obrigue à leitura labial. Festa de formatura, nem pensar, mil vezes um bom enterro. Casamento eu só vou à festa. Não impeço ninguém de ir nem atrapalho a diversão alheia. Mas me libertei do jugo de ser feliz em festas quando saí de um Bar Mitzva, em 31 de outubro de 2006, e, furtivamente, me esgueirei para casa. Lá chegando, tomei um banho, deitei na cama e fui ler um livro. Ah, que paz. Naquela hora percebi que alguma coisa tinha mudado na minha perspectiva. Não me chamem tampouco para assinar manifestos raivosos contra quem quer que seja nem para reuniões de marketing de rede, igrejas, congregações, mesquitas, sinagogas, grupos de apoio, terapias em grupo ou sessão espírita. 

Por fim, não me chamem para ambientes onde todo mundo pensa igual. Seria péssimo membro de Maçonaria, Rotary, Lions, clubes em geral, agremiações político-partidárias (acabei de dar minha última cota de contribuição a uma delas para nunca mais fazer isso na vida), shows beneficentes, paradas de minorias e círculos familiares diabólicos onde todo mundo faça a mesma coisa e as conversas não se oxigenem. Famílias de dentistas, médicos, contadores, comerciantes, industriais, políticos, militares, advogados e afins, são um suplício. Tenho horror a falar de ICMS, PIS e Cofins. Dificilmente vou com alguém ao cinema, ao restaurante ou ao parque. Eu marco encontro no cinema, no restaurante ou no parque e estarei lá pontualmente. Mas por hipótese alguma, vou ficar à mercê dos atrasos alheios. Espero no destino para não ter aborrecimento.  

Em suma, eis o perfil de um homem cujo prazo de vencimento infelizmente expirou. 


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