O recado das chamas

As ondas da demagogia vão atribuir-se culpas cruzadas e acenarão com redenção de ressuscitar o que já está morto

Por Fernando Dourado Filho, de Chicago (EUA)

Incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro

Hoje é Dia do Trabalho nos Estados Unidos. Portanto, é feriado. No domingo, o diapasão da vida era o de um sábado de fim de verão. Os restaurantes estavam cheios e as pessoas não tinham pressa de terminar o almoço. Nesta terça-feira, o país acordará num módulo diferente. Para trás ficarão o calorão, a semana de férias que alguns tiraram ou uma viagem sentimental que muitos possam ter feito. Doravante os dias serão cada vez mais curtos e dentro de um mês, a vegetação se ressentirá de uma noite mais fria e perderá o que resta de verde. Logo as calçadas estarão atapetadas de folhas mortas e, uma bela manhã, a temperatura cairá para um dígito. As lareiras começarão a crepitar e todo mundo falará do Dia de Ação de Graças e da compra do peru. A vida estará então a pleno vapor e daí até o Natal será um passo. Pouco depois, este grande país receberá 2019, para o qual todos fazem planos desde já. É assim que funciona a vida nesta parte da América. Na parte que inegavelmente deu certo, goste-se ou não. Com direito a todas as glórias e todas as mazelas das vidas individuais porque estas ninguém pode abolir.   

Nesse diapasão, no domingo tivemos um jantar festivo em casa de meu primo. Ao lado de seus quatro filhos, todos nascidos no Brasil, mas residentes aqui – em alguns casos há mais de 20 anos –, por um momento tive a sensação de que estávamos no Recife. Quase podia sentir a presença de nossas amadas mães que àquela mesma hora cumpriam ritual parecido ao sul do Equador, lá em Pernambuco, e que deveriam estar falando de uma temática similar à que nos entretinha mesmo porque toda família tem sua mitologia e sua linguagem, e a nossa não é diferente das demais. No caso específico de nossa mesa, a ênfase se voltava para o Brasil contemporâneo. Como eu vinha de seis meses de ajuda na formulação de um plano de governo para um candidato majoritário do Sudeste, entendia o interesse dos mais jovens em saber minha opinião sobre diferentes temas da realidade brasileira. O bom de você ser um cara rodado é que as pessoas o escutam com mais atenção do que você merece. O lado ruim é que a meninada de 25-30 anos acha que você tem resposta para tudo, o que evidentemente não é verdade.   

A certa altura, na falta de coisas boas para falar sobre o Brasil, muito menos de consenso entre nós, desviei o foco para o funeral de Aretha Franklin que tinha acontecido poucos dias antes e comentei sobre o belo e caloroso discurso de Bill Clinton, orador presente à cerimônia. Essa conexão entre arte e cidadania, entre governados e governantes, é sintomática de que as artérias do país estão vascularizadas. O que não acontece com o nosso há muito tempo. Pouco depois, o foco foi o funeral do bravo Senador pelo Arizona John Mccain. Candidato à Presidência derrotado por Obama, e prisioneiro de guerra no Vietnã por mais de cinco anos, esse homem brioso e de valor proibiu Donald Trump, também republicano, de botar os pés em seu enterro. Mais do que isso, pediu que o ex-presidente Obama fizesse o elogio fúnebre de praxe nessas ocasiões, embora o pedido a um ex-adversário contrariasse todas as praxes. Peguei os dois exemplos por serem representativos da conexão entre governantes e governados. Da comunhão em torno de valores e de uma herança cultural que se nutre das boas-vindas aos que chegam e das honras aos que partem.

Já nos despedíamos da primeira leva quando alguém disse que no Brasil, um museu estava ardendo.

Como co-anfitrião, não queria deixar a conversa de lado para acompanhar a crônica de mais uma desgraça anunciada. Que museu seria este? E continuamos. Já bem tarde da madrugada, levando-se em conta as duas horas de fuso que separam Chicago do horário oficial de Brasília, não consegui dormir nem tampouco me concentrar na leitura. Contrariando minha determinação de não abrir a internet à noite, fui dar uma olhada no que acontecera. Pois bem, tratava-se do Museu Nacional, aquele mesmo da Quinta da Boa Vista onde passáramos um dia memorável em 1968, levados por meus pais. Então perdi de vez o sono. Como o dia já raiava no Brasil e as notícias começavam a ser mais consistentes, soube que as verbas eram de uma indigência absoluta, que a gestão era toda ela aparelhada por duas siglas partidárias, e que o fogo foi a resposta do destino ao desprezo com que se tratava um acervo de valor inestimável. Horas depois de conversar com meus jovens primos sobre o que realmente diferencia a realidade que eles deixaram para trás e que tanto idealizam, o Brasil, e esta do país de adoção cujos cânones nem sempre apreciam, a resposta estava ali nas labaredas. 

Nesta segunda-feira pela manhã, ainda nauseado por tanto descalabro e pela extensão da perda, mandei um WhatsApp para eles no grupo que congrega o ramo americano da família. Nele disse o seguinte: "Meus queridos, foi muito bem vê-los no domingo à noite. Com vocês sempre aprendo sobre a vida diária americana, uma disciplina que os livros levam muito tempo para registrar. Enquanto comíamos nossa pizza, um importante museu brasileiro virou cinzas. Nos próximos dias, as ondas da demagogia política vão atribuir-se culpas cruzadas e, aproveitando a brecha, acenarão com propostas de redenção de ressuscitar o que já está morto. Fiquem aqui. Não voltem. Resistam à tentação ilusória de que no Brasil temos calor humano, bolo de rolo, alegria de viver e que aqui as pessoas dormem cedo e a melancolia do inverno é acachapante. Repito, fiquem aqui e proporcionem a seus filhos a oportunidade de crescer num mundo que não negocia seus valores no bazar da política hedionda. Aqui eles poderão ser o que quiserem e os ventos vão ajudar. Vão ao Brasil passar férias. Mas jamais hipotequem seus sonhos a uma aventura permeada de fracassos. Desculpem o tom amargo. Beijos e até a volta".  


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