Friendly people

Os americanos são treinados a exercer uma "escuta ativa" que parece traduzir genuíno interesse pelo outro

Por Fernando Dourado Filho, de Chicago (EUA)

Fernando Dourado Filho fala do jeito americano de fazer amizades

Fora delas, adoro as rotinas. Como explicar o paradoxo? Como nunca as tive muito rígidas, e tenho certa aversão até à palavra porque ainda me cheira a acomodação, adoro entrar em sintonia com pequenos hábitos pelos dias em que estiver em dado lugar. Faz uma semana que tenho o privilégio de estar aqui em Chicago, uma das mais charmosas cidades dos Estados Unidos, senão a mais, em pé de igualdade com San Francisco e mordendo os calcanhares de Nova York. Apesar da fama terrível de seu inverno, consegue ser primorosa nas demais estações.   

Nessa toada, gosto de tomar o trem de subúrbio todo dia pela manhã, fazer a baldeação na principal estação da região Norte, onde me encontro, e chegar ao famoso "loop", o carrossel ferroviário que circula num enorme quadrado pelo coração da cidade ao longo de umas 15 estações principais. Chegando à minha, que pode ser State, Wabash ou Van Buyren, caminho até a Biblioteca onde sou recebido pelos mesmos indivíduos e assim ocupo meu lugar. O que há a destacar nisso? Ora, a simpatia das pessoas de forma geral, mesmo das jovens. 

É claro que isso não é um estado de espirito permanente e universal. Mas a atitude geral é de receptividade e simpatia. O "Hi, how are you today?" pode parecer um artificialismo ditado pelas regras singelas do comércio, mas a verdade é que abre muitas comportas. O mais espantoso é que os americanos são treinados, ou condicionados, a exercer uma "escuta ativa" que parece traduzir genuíno interesse pelo que o outro tem a dizer. Mesmo quando o assunto é totalmente estranho ao universo deles, o olhar parece brilhar e dizer o contrário.

Nesse contexto, até os imigrantes assimilam bem ou mal esse jeito de ser tão peculiar. Domingo passado, fiz novos amigos. Ela é croata, tem 75 anos e ele grego, já conta 80. Ambos moram aqui há meio século. Passamos quatro horas confabulando sobre as belezas do mundo e a simpatia era a todo momento reforçada por uma total ausência de ego, e a disposição em fazer com que o visitante se sinta o mais aconchegado possível. Se tivesse que destacar um dos fatores que faz desse país excepcional, este é um deles. 

Que Trump não nos ouça.


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comentarios




Maria Teresa Sauer

Caro Fernando, gosto de quem admite que os EUA representam um grande lugar para se viver, visitar, saborear e admirar. Meu tio avô fugiu da segunda guerra e se instalou no american way of life. Assim, criamos uma pequena simpatia por Yale e começamos a frequentar a terrinha até hoje. Fico até constrangida quando digo admirar a simpatia dos americanos. Mas vou mais longe, admiro, principalmente, o jeito elegante do trânsito, voltado à educação única e exclusivamente por excelência. Parece sempre haver tempo para boas prosas com gente de todas as idades ! Ah! E a sensação boa ao encontrar sobre uma murada a sandália esquecida no dia anterior nas lindas praias da Flórida! E, para contrariar, fico pasma quando alguém diz que os americanos não têm uma comida gostosa... Há milho mais tento que o americano? E o bom macarrão Alfredo, a Cesar salad, as lagostas gigantes e saborosas... Meus pais passam longas temporadas em Deerfield e têm mais amigos por lá. Aliás, quando estão por lá, não me preocupo em como estão, sei que estão bem: sendo respeitados e curtindo a vida adoidado para um casal já com idade avançada. Sinto falta de meu sobrinho que está abrindo caminho no financial District, mas sei que está feliz. Meus primos vivem em Michigan trabalhando na Ford e já nem pensam em voltar para cá. Um deles, mais novo, mudou-se com a família para Boca Raton e está feliz como nunca, fazendo seu barbecue aos fins de semana e criando os filhos em boas escolas que lhe fizeram conhecer a música e a autenticidade da oralidade precoce. Só sinto que, à época de estudar fora, meu pai não queria ficar longe das meninas que cresciam ao seu redor! Aproveite sua estada e aproveite cada instante dessa cultura civilizada e deliciosamente educada de ser!

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