Gente que foi à luta

Foi assim que nasceu um complexo verticalizado, dotado de uma metalúrgica que Edson Moura me mostrou na ocasião

Por Fernando Dourado Filho, de Chicago (EUA)

Planta da Baterias Moura, na Argentina

Nunca tive maior familiaridade com o mundo empresarial de Pernambuco. Morando em São Paulo desde 1981, meu estado natal foi sempre um remanso de paz para pensar em outras coisas. Estas poderiam ser o convívio com a família, o encontro com os amigos, a descoberta de novos lugares, a visitação obrigatória aos pontos de minha infância e adolescência e pouco mais do que isso. Uma vez a caminho de casa, eu então virava a chave e voltava a ficar antenado com um mundo mais concreto, feito de trabalho e de todo o universo de preocupações e reflexões relativas a ele. Mas nunca tive esse estado de espírito no Nordeste em geral. 

Sei, por certo, que Pernambuco mudou muito nos últimos 30 anos, especialmente desde que o porto de Suape ganhou envergadura. Governos desenvolvimentistas empurraram a economia para frente e lá prosperaram polos como o Porto Digital, uma rede de supermercados que depois evoluiu para a construção e gestão de shopping centers, pelo menos uma grande empreiteira, um pujante centro médico-hospitalar, uma montadora e até uma refinaria de petróleo, que não sei se pode ser inserida na relação de grandes glórias do Estado. Ainda capenga de infraestrutura, o certo é que Pernambuco melhorou. 

No âmbito das grandes empresas privadas, porém, aquele a que sou mais afeito até mesmo por meu histórico profissional, acompanho com orgulho o muito que conseguiu a Baterias Moura (foto), nacionalmente conhecida e, ao que sei, marca exportada para mercados de primeira grandeza mundo afora. Nesse contexto, tenho uma pequena história de que me envaideço em justa medida, já que ele me conecta, por escassos e intensos dois dias, a um capítulo que quase me levou de volta para casa, nem bem tinha chegado a São Paulo. Para o bem da empresa, digamos assim, foi melhor que as coisas tenham terminado da forma que narro a seguir.

Lá por 1984, tendo eu 26 anos, 3 dos quais trabalhando no Sudeste, li no jornal um anúncio em que se recrutava um gerente de exportação para a empresa. Mandei o currículo e toquei a vida adiante. Até que um dia recebi um telefonema em que era convidado para uma conversa no Recife e outra em Belo Jardim, no meu Agreste natal, onde ficava localizada a fábrica. Conversei longamente com o presidente e fundador, de nome Edson Moura. Um dos filhos dele estudara no Colégio de Aplicação e eu tinha uma vaga referência da família. Sem ser um exemplo de simpatia, parecia ter uma determinação férrea. E tanto quanto ele, porém mais afável, sua esposa. 

Visitando as instalações, perguntei como chegara ao ramo. Disse que fora por acaso. Todo mundo ali fazia doce de goiaba ou de marmelo: fruta, água, açúcar, um tacho e eis mais ou menos tudo. Comentando com um amigo que desejava para si um futuro, o sujeito disse que pensasse em outra coisa. Em que? Como havia meia dúzia de baterias sendo recarregadas ao lado, o confidente falou: sei lá, bateria, por exemplo. E foi assim que nasceu um complexo verticalizado, dotado de uma metalúrgica que ele me mostrou na ocasião. Esboçando os planos de expansão internacional, falou em montar uma operação em Porto Rico para atender os Estados Unidos.

Quanto a mim, fiquei balançado pela perspectiva de trabalhar ao lado de um homem tão clarividente. De mais, estaria perto de Garanhuns, minha cidade natal, e manteria um pé no mundo. Na época, eu era casado. Tinha um sogro ponderado e vocacionado para ouvir e aconselhar. Então ele me disse que tudo aquilo parecia muito bom, mas que eu declinasse. São Paulo para mim estava só começando e ainda tinha muito a me dar. Que eu resistisse à tentação de apostar minhas fichas num retorno prematuro para Pernambuco. Até hoje, ele não ocorreu. Ver, contudo, que a empresa é um grande player de autopeças do país me enche de orgulho. Orgulho por Pernambuco e por eu ter passado perto de integrar esse modelo de sucesso.  


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