O papel pedagógico das amantes

Onde mais um jovem podia ter aprendizado tão abalizado sobre as vicissitudes da alma feminina?

Por Fernando Dourado Filho, de Chicago (EUA)

Fernando Dourado Filho fala sobre o papel pedagógico das amantes

Tenho uma fornada de primos jovens aqui nos Estados Unidos. Filhos de meu primo-irmão, é claro que tenho por eles enorme carinho e fico feliz em ver que estão bem inseridos na vida norte-americana, conscientes de que este país pode ser uma dura provação, mas que prepara os mais aptos para as regras da competitividade e, consequentemente, abre caminhos para a consecução das metas que cada um fixar para si. Com direito, evidentemente, à ampla gama de nuances que a vida comporta. Afinal, o que é sucesso para uns, não será para outros. Mas o que não falta aqui é opção e isso já desequilibra o jogo em favor do que eles chamam de viver o sonho americano. 

Ontem, contudo, depois do almoço do domingo, me peguei refletindo sobre algumas perdas que os tempos modernos trouxeram ao mundo, aqui ou em qualquer outro lugar. Ao ser apresentado à noiva de um jovem primo, e depois de ouvir os planos de casamento para a próxima primavera, fiquei pesaroso em ver que os jovens partem direto para a roleta russa de uma experiência conjugal, sem se dar conta do pacote complexo e multidisciplinar que isso envolve. E foi então que pensei no papel fundamental que desempenhavam as amantes de antigamente. Geralmente mais velhas, não raro casadas, elas traziam às nossas vidas uma bagagem inestimável de vivências. 

Para começar, se estavam ali, do alto de seus 40 anos com um rapaz de vinte e poucos, era sintomático de que algo não estava correndo lá muito bem em seu casamento. Daquelas longas sessões de confidências em torno de um drinque, brotavam depoimentos preciosos sobre os riscos da rotina, o sexo sem imaginação, a grosseria, a indiferença e a distância emocional.  Quantas não diziam que tinham casado com um homem alegre e jovial, para vê-lo reduzido a um  poço de amargura e fonte de clichês previsíveis? Pergunto: onde mais um jovem podia ter aprendizado tão abalizado sobre as vicissitudes da alma feminina, tão complexa e tão fascinante? Não será necessariamente em Harvard.

Propor uma pedagogia dessas hoje, contudo, é quase uma heresia. Quando demonstro surpresa que um jovem de 25 anos nunca tenha tido uma amante para encontros esporádicos a dois, ele me olha como se eu fosse o mais escrachado dos adultos, um poço de perversão e licenciosidade. Então rebate que não lhe parece adequado e, ademais, isso seria perda de tempo, de energia e de dinheiro. Para muitos deles, trata-se de apostas "sem futuro", o que para os padrões locais certamente é uma ignomínia. Afinal, a vida na América se pauta pelo pragmatismo e pelo foco no hoje para um amanhã radioso. Como convencê-los de que algumas tardes num hotel vale um MBA dos bons? 

Não sei a quantas anda o estado  da arte dessa instituição no Brasil e no mundo. Imagino que vivamos num mundo onde o sexo integra a rotina de milhões de brasileiros que entretêm uma relação mútua de dar e receber prazer. E não sei das estatísticas, mas imagino que a imensa maioria dos encontros se esgote na segunda ou terceira rodada, e que as experiências de ambos sejam mais ou menos similares, sem grandes defasagens de idade cronológica ou emocional. Pode ser que eu seja simplesmente um velho romântico, desses que leram muita ficção. Mas alguma coisa me diz que essa cátedra da universidade da vida era insubstituível. E que, como poucas, sabia aliar teoria e prática. Da psicologia à educação física. 


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