Conversando com mulheres

Japoneses fazem cursos para se tornarem mais interessantes para o sexo oposto

Por Fenando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Japoneses fazem cursos para se tornarem mais interessantes para o sexo oposto

Da última vez que estive com o amigo Sato, em Tóquio, ele estava próximo da aposentadoria. Tendo trabalhado durante quase 40 anos na Sumitomo, eis que chegava o momento de se dedicar a outras atividades para substituir a disciplinada rotina corporativa a que obedecera com devoção. "Francamente, Dourado San, eu não sei como será minha vida. Moro perto de Yokohama e nunca passei lá mais de três dias inteiros consecutivos. Minha mulher está preocupada que eu atrapalhe mais do que ajude. E, confesso, não sei sequer como vou me apresentar às pessoas. Se já não sou da Sumitomo, quem sou? Quem pode ser apenas representante de si próprio? Talvez isso pareça muito japonês, mas é assim que somos". 

Depois perdemos contato. Nas viagens ao Japão, tinha notícias dele por intermédio de Ono San, o homem que o substituiu. As notícias não variavam muito. Ora estava num torneio de golfe no Havaí, ora viajara com outros aposentados para a Tailândia. "Ele vai melhor do que a grande maioria. Conheço gente da idade dele que esconde da esposa o desemprego. E sai todo dia pela manhã de terno e gravata como se fosse trabalhar. O normal é que passe o dia em parques ou salões de pachinko. À noite, bebe um pouco e chega em casa como se nada tivesse mudado. Se contar a verdade, teme desestruturar a família. Sabemos até de casos de divórcio. As mulheres não aguentam, pois se acostumaram sozinhas".

Embora tudo isso me parecesse muito distante de meus próprios horizontes, tanto pela cultura como pela cronologia, um detalhe me chamou a atenção. Foi quando Ono me contou que muitos homens vinham fazendo curso para aprender a falar com as mulheres. Como praticamente não havia conversa doméstica, salvo aquela ligada a questões práticas, e como não havia muito lugar para mulheres nos escalões mais altos da vida corporativa, homens começavam a ter lições de como se tornarem mais interessantes para o sexo oposto. Findas as hierarquias que os protegiam numa redoma, a ordem passava a ser buscar um diálogo igualitário e prazeroso. E isso transitava evidentemente por reconhecer que elas também têm o que dizer e que sabem ouvir.   

Pinçado pela curiosidade, perguntei certa feita em que disciplinas consistia a grade curricular do programa. Ono San me contou que ele se distribui em cinco módulos. Etiqueta ocidental: acomodar as mulheres na cadeira antes de sentar-se. Acender-lhes o cigarro, se são fumantes. Ajudar a levar os pratos à máquina de lavar, se estão em ambiente privado. O segundo consiste em explorar os interesses de sua amiga e mostrar curiosidade genuína sobre o que fazem em seu tempo livre. Isso consegue-se por meio de uma enxurrada de perguntas bem cadenciadas. Em terceiro lugar, indagar sobre seus sentimentos profundos com respeito á beleza, à natureza, à vida moderna e aos sonhos ainda não realizados. 

Já interessado por uma grade curricular tão ampla, pedi-lhe que me recitasse os dois restantes. Na perspectiva ocidental, talvez não sejam os mais complicados. Trata-se de falar sobre os próprios medos e fraquezas do homem, como forma de criar uma empatia real entre as partes. Recomenda-se que este módulos seja exercitado ao ar livre, em longos passeios a dois, longe do ambiente barulhento dos restaurantes. Por fim, disse Ono san, para agradar uma mulher plenamente, um homem de meia-idade ou mesmo ancião, precisa saber que na juventude fala-se muito de sexo, mas se pratica comparativamente pouco. Mas que, depois de certa idade, elas gostam de falar muito a respeito, mas também de praticá-lo com grande despudor.  

Vendo minha surpresa, complementou: "As japonesas podem ser incrivelmente diretas, Dourado san". A so desu ka?  


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