O Brasil que eu quero

Gostaria de ver um país onde as pessoas fossem mais originais na expressão de seus desejos

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Bandeira do Brasil

Não sei há quanto tampo a rede Globo vem veiculando no noticiário a série de depoimentos de brasileiros de todas as regiões sobre o país com que sonham. A ideia, convenhamos, não é ruim. Ainda que mais não seja para descortinar as distâncias fenomenais da geografia nacional e trazer à luz do dia a existência de municípios de nomes exóticos que vão dos Pampas à Amazônia, do Pantanal à Caatinga. Se paisagens e sotaques podem ser bastante diversos, o mesmo parece não ocorrer com 90% das mensagens veiculadas. 

É claro que a empresa não pode arbitrar o que quer ouvir das pessoas. Afinal, a espontaneidade dos depoimentos é o grande charme da empreitada. Se prestarmos bastante atenção a cada bloco, porém, é fácil concluir que estamos em maus lençóis. Nem tanto pelas mazelas apontadas, quase sempre ligadas às deficiências de infraestrutura. Se tampouco há novidade em vocalizar apelos de combate à corrupção e clamores contra o proverbial mau caratismo da classe política, há indícios inquietantes na forma como isso se dá. E explico. 

Nesse contexto, os depoimentos espelham uma flagrante indigência sociocultural. Além da obediência a um padrão monocórdio de discurso – e já nem falo aqui das reivindicações –, salta aos olhos a falta de recursos expressivos, o abuso dos chavões e a dificuldade extrema em se formular um juízo com um mínimo de originalidade. Se esses elementos são perceptíveis na linguagem coloquial, longe, portanto, dos desafios da escrita, o que não inferir do padrão de redação dessas mesmas pessoas? O que aconteceria se tentassem escrever a respeito?  

Assim sendo, das duas uma: ou bem a emissora privilegia os depoimentos mais pobres e previsíveis, sob a alegação de dar voz a quem não tem, ou estamos efetivamente muitos pobres de formulação. Daí não ter ouvido ninguém falar sobre nossa agenda internacional, sobre a inserção do Brasil no mundo e, de alguma forma, nossa reindustrialização. Ou será que as pessoas mais aptas a pensar nessa linha não se dispõem a prestar testemunhos na televisão, talvez por pudor? Não saberia dizer e talvez só a Globo tenha a chave do enigma. 

De minha parte, se chamado a falar sobre o Brasil onde eu gostaria de viver, eu diria que gostaria de ver um país onde as pessoas fossem mais originais na expressão de seus desejos, tanto na forma quanto no conteúdo. Mas isso seguramente não seria veiculado nos telejornais da emissora. 


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