Iatrofobia ou medo de médico

Acho que é certo atribuir essa fobia ao fato de que nunca tive até hoje nada de minimamente preocupante

Por Fernando Dourado Filho, de Lisboa (Portugal)

Iatrofobia ou medo de médico: Fernando Dourado Filho explica o que é

Escrevo este artigo numa tarde cálida de fim de verão. Quando postá-lo nas redes sociais, dentro de alguns dias, não temo que tenha caducado porque há anos, muitos anos, o enredo relatado se repete monotonamente, beirando a exaustão. Menos mal que agora posso dar a ele um nome que acabo de aprender numa visita à livraria: iatrofobia, também conhecida como Síndrome do Jaleco Branco. Em português claro: tenho medo de médico.

Ora, nada é mais desesperador do que acompanhar na arena do próprio corpo o embate entre o bom senso e a resistência atávica a procurarmos o médico, despojando-nos de todas as reservas. Mas tem gente que não consegue e creio que este é o meu caso. Diz o livrinho que isso está relacionado aos ambientes hospitalares e a uma certa reserva que move algumas pessoas contra a autoridade em geral. Sentem-se diminuídas diante de prescrições e restrições. 

Em maior ou menor medida, acho que este é o meu caso. Nada mais pode justificar que esteja sempre deixando para depois consultas que podem ser determinantes tanto para o bem-estar quanto para a própria vida. Ora, sei desde sempre que os hipocondríacos normalmente são bastante longevos. Tinha uma tia que morreu aos quase 90 que acionava o médico à menor verruga que aparecesse na pele. E não tenha semana em que não achasse alguma coisa.

Já eu perco a alegria de viver – que é tanta – a partir do momento que marco a consulta. Normalmente, marcam por mim, pagam e então me sinto obrigado a comparecer. Mas os dias que antecedem são desprovidos de qualquer encanto. Tento emagrecer uns quilos, seguro na alimentação para que as taxas tenham um bom desempenho e procuro versões suaves para descrever as coisas que sinto, apesar de muitas delas merecerem cuidados. Mas prefiro o autoengano.  

Acho que é certo atribuir essa fobia ao fato de que nunca tive até hoje nada de minimamente preocupante. Com resistência acima da média, contam-se nos dedos das mãos as vezes que fui ao médico. Tenho certeza de que fui três vezes mais ao pediatra, pelas mãos de minha mãe, do que fui entre os 15 anos e os 60. No dia que tiver que enfrentar um diagnóstico cruel, não sei como reagirei. Imagino que com as reações típicas de negação, se a doença assim o permitir. 

Conversando sobre isso com um médico que reside em Portugal, e que deixou a profissão para se tornar construtor, ele me recomendou tentar esclarecer isso via terapia. Afinal, dos 60 para frente, não se pode evitar os médicos por muito tempo porque a progressão de certas enfermidades pode ser galopante. Semanas, segundo ele, podem fazer enorme diferença. Mas cadê coragem e tempo para procurar um psiquiatra para contornar um problema de que sou consciente? 

Como viajo bastante, sempre digo: quando estiver no Recife, vou ao médico lá. Se tiver alguma coisa, estarei perto dos familiares. Quando estou lá, penso: deixo para São Paulo, onde os exames são feitos na hora. Ao explicar porque desisti, penso: é melhor esperar estar na Europa ou nos Estados Unidos. Assim, em caso de más notícias, terei tempo de processá-las com calma. E nessa pisada vou adiando o encontro com o inevitável. 

Iatrofobia, não tenho nenhum prazer em conhecê-la. Mas pelo menos sei agora por qual nome atende minha maior inimiga. A minha anfitriã do além-túmulo.


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