Taxistas de Lisboa

Os brasileiros são pessoas muito boas. A maioria deles, por assim dizer

Por Fernando Dourado Filho, de Lisboa (Portugal)

Fernando Dourado Filho relata conversas com os taxistas de Lisboa

"Sei, sim senhor, que fazem 44° à sombra, o rádio está a dizê-lo a todo momento. Mas o aparelho de ar condicionado do carro não funciona desde ontem. E digo-lhe mais: são muitos os automóveis de nossa frota que estão na mesma situação. Simplesmente não estamos acostumados a temperaturas similares, como sabe. Se tivesse dito que fazia tanta questão, lá mesmo no aeroporto poderia ter escolhido outro táxi, mas agora já é tarde porque passamos a rotunda, pois não. É verdade que brasileiros gostam demasiado do ar refrigerado, ao passo que nós aqui, nem tanto. Talvez porque o Brasil seja muito quente e os senhores dependam disso para sobreviver, não é? Aqui preferimos o ar fresco das ruas. Sempre que tenho passageiros brasileiros, dizem que querem ar e, se calhar em pleno inverno. Os pretos de África, por outro lado, que vivem em temperaturas tão cruéis quanto as vossas, não têm o hábito do ar refrigerado. É verdade que também circulam menos de táxi e não estão acostumados ao conforto. Reconheço sim que hoje está excepcional e que até o ar esteja quente. É como se fosse o bafo do deserto, não é? Não que eu tenha estado lá, Deus me livre, mas meu marido dizia que o Saara exalava um abafado que só pode ser isso aqui. A mim não desagrada de tudo. Cá estamos chegando a vosso hotel. Serão treze euros com noventa e espero que tenha uma boa temporada aqui, apesar do calor. Segunda-feira tudo vai estar já um bocadinho melhor. Adeusinho"

"Já vi que o amigo é brasileiro. Se me permite, posso dizer-lhe o que acho de sua gente? Pois bem, veja lá o senhor que não é a todo mundo que diria o que vou dizer-lhe, já que alguns podem ser sensíveis à franqueza. Em primeiro lugar, os brasileiros são pessoas muito boas. A maioria deles, por assim dizer. Por outro lado, impõem seus hábitos em todo o setor de serviços da cidade de forma que já não sabemos se estamos em Lisboa ou em algum lugar do Brasil. Dançam forró – é assim que se chama –, e têm seus próprios locais de entretenimento. Não digo que seja certo ou errado, mas nos trabalhos de construção, nas obras, já não há brasileiros. Eles preferem restaurantes, bares, cafés, discotecas e clubes. É claro que têm a facilidade da língua, o que não acontece com a gente do Nepal que chega aqui. Ou mesmo da Índia. Agora fico lá preocupado quando me dizem que são 13 milhões os desempregados no Brasil. Basta que um tantinho deles chegue aqui, e já não haverá trabalho para os próprios portugueses. Em outros tempos nossas mulheres achavam que as brasileiras cá chegavam para lhes roubar os maridos. Agora já não porque elas também começaram a se vestir como brasileiras e a caminhar como elas. É um grande país, não há dúvida, nossa gente deve muito à vossa terra. Lá nunca estive, o mais próximo que cheguei foi a Angola, mas ainda havia ali todo o mar para atravessar, não é? Que tenha uma estada feliz. Passar bem". 


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