O mulato inzoneiro

O Brasil vai apertando as tenazes do absurdo e do desrespeito pelo suor e pela inteligência alheia

Fernando Dourado Filho, de Recife (PE)

Logo mais atravesso o Atlântico e, não fosse tudo o que me prende ao Brasil, não acharia ruim ficar fora uns tempos, apesar de ainda acreditar nas perspectivas que se abrem a partir de janeiro de 2019. Tamanho azedume talvez se explique pela conjunção de três episódios aparentemente desconexos. Na verdade, acho que eles se irmanam por um traço tênue que dá textura a tal brasilidade inzoneira a que se referia a música, e que os foi encadeando com perversidade tal que, por um momento, um cansaço brutal me fez desconfiar que tamanho desalento e irritação poderia estar ligada à somatização de um mal maior. Quando constatei que a mesma náusea já se apoderara de muitos outros em igual ou maior intensidade, suspirei de alívio. O que não me impediu de fazer o que sempre se aplica a essas circunstâncias, qual seja – desta feita sem nenhum cuidado formal –, de sentar ao computador para preencher as horas mortas dentro do avião e descarregar um pouco da bile. Curto e grosso, estilo que nunca foi o meu em "Será?" – posto que é aqui que gosto de me lambuzar –, eis a síntese do que me inspiraram, isolados e em conjunto, três fatos. Primeiro, a peça publicitária do jogador Neymar para a Gilette, e para si próprio. Segundo, a última edição do Roda Viva. Terceiro, o roubo da Medalha Fields, no Rio de Janeiro, que acabara de ser concedida ao matemático Caucher Birkar, refugiado curdo radicado em Cambridge. 


a) Chute na canela

Por muito que se saiba que o jogador Neymar é filho dileto das redes sociais; que a geração dele, não raro, encapsula-se em audiofones para ouvir música e que parece ter perdido, se é que um dia teve, a habilidade de interagir com o comum dos mortais, a sequência de alguns fatos afrontou os cânones fundadores da chamada "Pátria de Chuteiras". Depois de um desempenho que não foi nem brilhante nem pífio por ocasião da Copa do Mundo, a Seleção Brasileira voltou mais cedo para casa. Nos cinco jogos em que esteve viva, nosso maior astro ganhou a antipatia de adversários, árbitros e até de torcedores, pela recorrência espetaculosa a quedas de efeito e sonoros urros que tentavam magnificar a caça muitas vezes cruel de que era vítima. Como se a fama de "cai-cai", ou de "piscineiro", já não fosse o suficiente para que ele buscasse um desempenho limpo e desportivo, ainda que à custa de engolir a dor, eis que voltou a tentar ludibriar juízes de campo e de fora dele. Assim sendo, desde que a fortaleza que os trouxe de volta taxiou em Kazan, ele permaneceu em silêncio obsequioso, incapaz de ter uma interação direta e espontânea com a imprensa. Até quando foi acionado pela Globo, queria que ele próprio e sua equipe pautassem o que lhe seria ou não perguntado. Frustrado o intento, protagonizou um comercial patético em que alternou galhofa, "mea culpa" e pieguice. Juntando-se a Trump, virou escárnio planetário. E nós também; 


b) A Roda de patetas

Durante muitos anos, uma boa opção para a noite televisiva da segunda-feira, especialmente para os que moravam em São Paulo, era ver o Roda Viva, da TV Cultura. Embalado nos intervalos por uma das mais marcantes músicas de Chico Buarque, ver o entrevistado sentado no centro de uma bancada que já teve todos os tamanhos e componentes, constituía quase sempre garantia de trocas instigantes. Lembro em especial da vez em que o jornalista Leonildo Tabosa tentou encurralar Brizola a respeito da má fama que este cultivara nas hostes castristas, onde era conhecido com "el ratón". Isso por ter, alegadamente, desviado fundos políticos para benefício pessoal. A reação do caudilho foi das mais anedóticas dos anais da televisão e vale revê-la. Segunda-feira passada, contudo, jornalistas de certa reputação, engastados na grande imprensa, chegaram ao programa pensando em destruir o candidato Jair Bolsonaro. Ora, sendo ele alvo fácil de fulminar, cada qual quis fazer a pergunta fatal, quase sempre com alegações rasteiras sobre homofobia, xenofobia e racismo, a imagem de marca do deputado. O que aconteceu?  A falta de pautas substantivas que, estas sim desacorçoariam-no e lhe desnudariam as fragilidades candentes, deixou-o à caráter para destilar bazófias e proferir os disparates com que sonha sua claque. Fato é que ele se agigantou por mais umas semanas, e o jornalismo resultou em um anão. Ora, e quem mais? Nós também;  


c) Uma certa medalha

Não vou dizer a um público de iniciados o que representa a medalha Fields. Embora desde a famigerada edição do Roda Viva, a Wikipédia tenha sido alçada a um patamar imerecido de ridículo que não merece, certo é que qualquer consulta nela ao honrado nome do curdo Caucher Birkar atestará que é, antes de tudo,  filho de uma guerra fratricida, dessas que não levaram ninguém a lugar nenhum, como  foi o conflito Irã-Iraque. E que, com louvor, terminou seus estudos de matemática na Universidade de Teerã, antes de ser catapultado para a Grã- Bretanha, onde seu saber ganhou os vernizes definitivos que o habilitaram a  ganhar um simulacro de Nobel da matemática, a cobiçada Medalha Fields. Por razões que certamente se prendiam a premiar um dos centros de excelência desta ciência, a outorga do galardão aconteceu no Rio de Janeiro, cidade que deve povoar a fantasia de mais de um ao lá chegar, sempre achando que lhe caberá o quinhão bom, desbastado da cota de mazelas televisadas mundialmente. Qual não foi a surpresa do matemático ao constatar que a bolsa que deixara numa cadeira tinha sido levada, e que tudo dela sumira, salvo um celular. Com uma foto dos dois possíveis meliantes a rodar o mundo, eis mais um espetáculo deplorável coreografado em nossas terras. Esse grau de avacalhação de liturgias celebradas em todo o planeta, desqualificam o Brasil de forma assustadora, nem que seja pela trapalhada. E nós também.    


Epílogo

Por essas e outras, certamente que tenho deixado escapar um laivo de angústia, não de todo alheia a de um xará pranteado que até outro dia destilava nesta "Será?" algumas das pérolas de seu calvário. Imagino que não teremos fim similar, no que depender de minha vontade. Mas quem vive no Brasil, precisa desenvolver anticorpos vigorosos para lidar com a sensaboria das boas novas, e com o deslavado cinismo de jogadores narcisistas. Assim como com a gabolice de meia-dúzia de trapalhões enfatiotados, que se arvoraram de palmatória do mundo e que, inquisitorialmente, esqueceram o que aprenderam do ofício para, à custa de apelações populistas e da busca do aplauso fácil, expor a combalida "intelligentsia" a um deboche sem fim, diante de um personagem cheio de bufoneria. Por fim, como não registar o ar perplexo do ilustre matemático que, embora de tudo tenha visto na fronteira larga que vai do sublime ao atroz, não esperava que o símbolo genuíno e valioso de uma trajetória de superações pudesse acabar nas cafuas do crime de uma certa Cidade Dita Maravilhosa, mesmo sabendo que parentes seus pereceram pela letalidade das armas ilícitas de Hussein. Devagarzinho, portanto, o Brasil vai apertando as tenazes do absurdo e do desrespeito pelo suor e pela inteligência alheia. Que bons ventos soprem nas alturas. Se contarmos com uma aragem, talvez os vapores irrespiráveis aqui da planície nos refresquem. 



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