Valmarino, a vinícola dos Professores Pardais

A empresa de Pinto Bandeira é movida por inovação

Marcos Graciani

Valmarino, a vinícola dos Professores Pardais

Você já provou um espumante tinto? E, por acaso, degustou essa mesma bebida, mas feita com licor de expedição de blend envelhecido? E que tal levar para casa uma Bag-in-box cujo corte é feito de Cabernet Sauvignon e Merlot? Essas são apenas algumas das inovações criadas pela vinícola Valmarino, de Pinto Bandeira (RS). A empresa foi fundada em 1997 por Orval Salton e seus filhos Guilherme, Marco Antônio e Rodrigo. A escolha do nome Valmarino tem como finalidade homenagear a cidade de origem dos Salton – que fica em Treviso, na Itália, no mesmo local conhecido pelos Proseccos. Nos vinhedos da serra gaúcha são cultivadas 12 variedades de uvas em 16 hectares. O objetivo, desde os começos, é produzir vinhos e espumantes diferenciados em pequena quantidade que buscam revelar a tipicidade varietal e as características da cidade, região que deve se tornar DO (Denominação de Origem, termo usado para a certificação concedida e fiscalizada por um órgão governamental específico, que visa garantir a reputação do vinho, e a relação à região em que ele é produzido) em até cinco anos. No total, são cerca de 24 produtos no portfólio, mas esse número deve aumentar em breve.

A Valmarino produz anualmente 200 mil litros de vinhos e espumantes. Porém, 70% são destinados para Bag-in-Box. "Essa linha tende a crescer ainda mais. É algo que apostamos, pois esse tipo de vinho é bastante acessível devido ao baixo custo. Ainda que todo ano o preço suba um pouco, ele continua sendo acessível", explica Marco Antônio Salton, diretor administrativo da Valmarino. A Bag de cinco litros custa entre R$ 50 e R$ 55 enquanto a de três litros pode ser adquirida por um valor entre R$ 35 e R$ 40. Utilizando a marca Tre Fradéi, estão à venda as variedades Chardonnay e Moscato (brancas) e Cabernet e o corte de Merlot com Cabernet (tintas). Cerca de 40% da produção de Bag é vendida no Rio Grande do Sul. O restante vai para São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Entre os tintos oferecidos pela empresa está o Cabernet Franc Ano XVIII safra 2012, um varietal emblemático lançado no ano passado. "O rótulo faz referência aos 18 anos de fundação que serão comemorados em 2015", explica Marco Antônio Salton (foto), diretor técnico da Valmarino. "Seguimos a tática de lançar antes do mesmo modo como a indústria automobilística costuma fazer", diverte-se. Realmente é um rótulo para ter na adega. 

Em dezembro, cerca de 2.800 garrafas de espumante tinto chegaram ao mercado. O rótulo é um corte que leva Sangiovese e Pinot Noir. Outro produto existente no mercado hoje é produzido pela vinícola Estrelas do Brasil, mas é da variedade Merlot. Surpreende, no caso da Valmarino, a opção pelo corte. "É um espumante concebido não apenas para experts", orgulha-se Marco Antônio frisando que a bebida não é encorpada, característica que a torna mais fácil de beber. O preço de mercado gira em torno de até R$ 40. Nas redes sociais, há quem diga que a bebida poderia ser chamada de “ultra rose” e que costeleta de porco seria o casamento ideal para acompanhar.

O espírito de "Professor Pardal" que ronda a Valmarino não para por aí. Outro produto inovador é o espumante Nature Champenoise Valmarino 2011, um lançamento Top que passou por três anos de envelhecimento. O corte de Chardonnay (70%) e Pinot Noir (30%) usa um blend como licor de expedição (que geralmente é composto pelo próprio espumante e açúcar em quantidade específica que determina o tipo de produto. Esse é o último processo antes da garrafa ganhar a rolha). O blend usado pela vinícola para esse espumante é uma mistura das castas Chardonnay, Pinot e Sangiovese que passou dois anos por barricas de carvalho. A garrafa custa R$ 80.  

A vinícola também é responsável pela produção dos vinhos de marca própria dos restaurantes Casa DiPaolo, que tem nove restaurantes em cinco municípios gaúchos, e pelos espumantes da champanharia Ovelha Negra, de Porto Alegre. No Rio de Janeiro, o bar espanhol Venga oferece, além de espumantes e vinhos habituais, a Bag in Box que é utilizada para fazer sangria. 

Yes, we can
Um encontro inusitado fez com que a companhia gaúcha ganhasse o apoio de um investidor norte-americano. Marco Antônio conheceu Nathan Churchill na Vinotech, feira de Bento Gonçalves, em 2011. Churchill, que é presidente da empresa paulista Pasp, representa barricas e insumos para a indústria de bebidas, especialmente cervejarias. No Brasil, ele comercializa barricas americanas da marca Canton Cooperage e as francesas Taransaud e François Frères. O inusitado se deve ao fato de Marco Antônio ter comprado a primeira barrica de carvalho de Churchill com cheques – e não foram poucos. "Puxei do bolso cerca de 100 cheques de terceiros que somaram o valor de R$ 1,5 mil do produto", recorda-se. A partir daí nasceu uma amizade que tem prosperado na mesma velocidade dos negócios da dupla. 

O acordo com Churchill foi proveitoso para a Valmarino: a vinícola passou a ter um aval da qualidade dos produtos por causa do novo sócio, que é uma pessoa culta e que conhece as principais regiões produtoras de vinho do mundo e as suas tendências. Churchill ajudou no posicionamento da empresa quanto aos produtos diferenciados e de pequena tiragem. "A Valmarino ganhou muito prestígio e ficou conhecida por um público que antes não estávamos atingindo, pois tínhamos foco em outros produtos. A parceria nos possibilitou iniciar um trabalho com vinhos premium", conta Marco Antônio. Normalmente, os sócios se encontram duas vezes por ano, mas a tendência é que Churchill venha mais seguido para o sul. Razões não faltarão. É que além de produzir um espumante extra-brut que leva o nome Valmarino & Churchill (o vinho base envelhece um ano em barricas de carvalho de primeiro e segundo usos), a vinícola gaúcha também passará a adotar o mesmo nome para o Cabernet Franc que antes apenas levava o sobrenome do parceiro norte-americano. A previsão é que o produto chegue ao mercado a partir de maio. Ainda não há preço final, mas o da safra 2012 custava R$ 70. E tem mais: em breve chegará ao mercado o Terço, um rótulo que leva Cabernet Franc, Merlot e Tannat. Serão apenas 600 garrafas que serão vendidas por R$ 100 a unidade. 

A dupla também é responsável pelo rótulo Prestige Brut Nature, escolhido pela revista Gula como O Bom do Ano, denominação dada pela publicação para o melhor vinho da safra. "O espumante é surpreendente. Boa presença da madeira em seu aroma, que exibe ainda a lembrança de frutas secas, como nozes, avelãs e o esperado cheirinho de fermento de pão. Na boca reflete a expressão tostada com uma acidez envolvente e o gosto preciso determinado pelo baixo teor de açúcar residual", avalia, cirurgicamente, a Gula – e Cepas & Cifras concorda com toda a descrição. 

A grande parte dos espumantes champenoise da Valmarino são vinificados pela vinícola Geisse. Já aqueles de método charmat (Moscatéis e Proseccos) são processados na Piagentini. Uma particularidade da Valmarino está na vindima. Diariamente, se colhe uma tonelada das castas tintas que parte para o posterior esmagamento e, em seguida, para os tanques. "Talvez nossos tintos sejam mais frutados por esses cuidados que temos", reflete Marco Antônio. A empresa também opta por não filtrar grande parte dos produtos tintos optando pela decantação natural, o que confere maior qualidade às bebidas. Agora a Valmarino ensaia debutar no segmento de destilados. Até o fim de junho devem ser lançados um brandy e uma graspa. Como se vê, inovação é algo que corre nas veias dos sócios.



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