Campeões das urnas

Ditos quadros já nascem velhos para a nova política e estão condenados à rápida obsolescência

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Ditos quadros já nascem velhos para a nova política e estão condenados à rápida obsolescência

Poucos assuntos podem ser tão nauseantes quanto tratar da política atual. Mas paradoxalmente, nenhum outro tem tanta relevância aqui, pelo muito que está em jogo no momento do Brasil em geral. Nesse contexto, convém atentar para o que é velha política e o que podemos considerar como novas práticas. 

Comecemos pelas últimas. Novas são as plataformas que arejam o discurso, sinalizam com a proposição disruptiva, muito mais instigante do que a cantilena meramente evolutiva do passado. Na nova política, contempla-se o todo e não a parte, o clube em detrimento do jogador e o partido de preferência ao candidato.  

Já no campo dos anacronismos da política antiga, nenhuma prática me parece tão ultrapassada quanto a de querer carrear para um só candidato a eleição proporcional (especialmente de deputado, seja estadual ou federal) uma quantidade absurda de votos, equivalente por si só à de três de seus pares somados. 

A quem serve isso? Marginalmente, à legenda. O resto é puro recado subliminar. Ou seja, com uma cifra gigntesca, pretende-se dar a entender que o (a) candidato (a) está fadado (a) a voos muito mais altos, e que aquela votação consagradora foi só um prenuncio do que pode vir a ser um dia uma candidatura ao Senado, ao Governo do Estado ou além.  

Muito comum entre filhos de caciques políticos, vivos ou mortos, a eleição arrasa-quarteirão é vista não como um palco para que se discutam plataformas e se apresentem propostas inovadoras, senão como um teste de força, e como uma homenagem que se rende àquele grupo que, soberbo, mede forças com a própria sombra.  

Nesse contexto, embora uma votação estupenda também possa decorrer de um fenômeno próximo ao desagravo, uma espécie de protesto contra o establishment, como foi o caso do esforçado deputado Tiririca, o mutirão dirigido aqui intentado é concebido para anabolizar uma candidatura não-orgânica, feita para ocupar espaços à força. 

São inúmeros os estados brasileiros onde essa prática está se articulando nesse momento. Paradoxalmente, os eventuais beneficiários dela são candidatos jovens que precisam dar a tal demonstração de força. Indiferentes à desarticulação que provocam no cenário, protagonizam um perde-perde de médio prazo que, cegos pela ambição, não conseguem antecipar. 

Em suma, ditos quadros já nascem velhos para a nova política e estão condenados à rápida obsolescência. A menos, evidentemente, que queiram apostar no atraso. Normalmente, é o que acaba acontecendo porque é por este caminho que passa a manutenção dos currais de votos. Isso é o que se pode chamar de começar na contramão. 

Eis o que se pode chamar de alçar um voo de galinha. De uma largada de cavalo paraguaio, que só se alimentou no pasto do fisiologismo.  


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