Sobre os muito ricos

O destino da plutocracia povoa a imaginação de fantasias

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho fala sobre os muito ricos

A Bloomberg acaba de publicar uma lista dos multimilionários americanos. Somados os recursos de três famílias – Koch, Mars e Walton –, chega-se ao PIB de um país do porte da Colômbia, ou seja, superior a R$ 1,28 trilhão. 

Ao ver números dessa magnitude, é comum pensar que as pessoas diretamente beneficiadas por essas cifras – ressalve-se que aqui falamos de herdeiros, posto que são dinastias do varejo, chocolates e petróleo –, vivem na estratosfera. 

Poupadas das preocupações que afligem bilhões de terráqueos que lutam diariamente para fechar as contas, alimentar-se dignamente e sonhar com um amanhã, o destino da plutocracia povoa a imaginação de fantasias. 

A primeira associação que se faz é a de jatos exclusivos, casas confortáveis e protegidas e férias nos recantos mais paradisíacos do planeta, sem quaisquer preocupações com o extrato do cartão de crédito. Já é um bom começo. 

Muitos, é bem verdade, padecem de uma espécie de culpa por terem nascido em berço de ouro e passarão a vida tentando afetar certa normalidade de quem tem um padrão comum, nem sempre conseguindo ser convincentes. 

Outros parecem sofrer de depressão crônica e, por incrível que pareça, de uma espécie de complexo de inferioridade, diante do fato de que sempre haverá alguém mais rico do que ele, o que o fragiliza.

Ora, um homem de algumas dezenas de milhões de dólares, certamente pode morar na suíte presidencial do hotel Ritz parisiense pelo resto de seus dias. Mas sua fortuna não lhe permitirá comprar o hotel por um capricho que lhe dê na veneta. 

Muitos deles farão doações em vida da maior parte de seu dinheiro para boas causas humanitárias, deixando para os descendentes uma pequena fração do valor nominal que amealharam e multiplicaram. 

Ainda esta semana, um jornal de São Paulo publicou longa entrevista com o controlador da Cyrela, o sírio-brasileiro Elie Horn, dono de US$ 1 bilhão, que se tornou já há alguns anos um filantropo abnegado.

Em meus 60 anos, 45 deles em andanças pelo mundo, cruzei caminhos com pessoas de muito dinheiro. Com algumas delas, trabalhei. Com outras, passei momentos divertidos. Com a maioria, fiquei de modesto observador. 

Tudo somado, cheguei a algumas conclusões pessoais que listo aqui abaixo. Elas resvalam a dimensão individual de percepção e vão um pouco além do arrazoado ilustrativo que você leu acima, o que poderá sempre lhe ser útil: 

a) Pessoas com muito dinheiro têm tantos problemas quanto as que o têm pouco. A blindagem patrimonial e a escala sideral dos números envolvidos (que vão muito além de viabilizar o bem estar), podem torná-las inseguras e angustiadas; 

b) O assédio de oportunistas é sério indutor de percepção truncada, o que pode levar pessoas mal treinadas a alternar condutas de amor e ódio a agentes externos a seus círculos habituais, ora divinizando-os, ora execrando-os; 

c) A busca de um propósito de vida aflige-as na mesma medida que afeta pessoas de classe média. Reuniões com conselheiros, tutores, advogados e banqueiros são rotinas excruciantes que podem dar uma sensação de vazio à vida real; 

d) A simplicidade será quase sempre um valor muito apreciado. Ela descontrai, desarma os espíritos, desdramatiza as distâncias interpessoais e cria um canal de confiança e cumplicidade emocional a que elas não estão acostumadas; 

e) Elas podem ser totalmente desprovidas de empatia, especialmente para com o universo das pessoas de classe média. Podem ser surpreendentemente mesquinhas e venais, o que não acontece para com os mais pobres;       

f) O convívio em meios homogêneos dificulta a percepção dos matizes da vida e o desenvolvimento de instintos perceptivos interpessoais. Para se sentir seguras, a maioria dessas pessoas bane de seu entorno indivíduos que destoem; 

g) Pessoas muito ricas farão sempre um esforço meio risível para mostrar aos dessemelhantes que elas também precisam suar a camisa para enfrentar a carestia, a insegurança das ruas e a deterioração do país;

h) O convívio compulsório com seguranças, pilotos e motoristas as leva a ver o mundo real pelo prisma desse círculo íntimo. Eles são seus filtros de exposição ao sol. São, portanto, temerosas a tudo que lhes pareça uma quebra de confiança;

i) Os muito ricos não são necessariamente pessoas sofisticadas de índole, muito viajadas ou cativantes. Ser reféns de um estilo de vida faustoso não lhes confere a elegância e o savoir vivre dos que são simplesmente bem nascidos, categoria que invejam; 

j) As incertezas que cercam sua bolha e o medo que ela estoure, faz com que sejam mais sensíveis do que a média das pessoas comuns a videntes, numerólogos, cartomantes e confidentes sinistros e manipuladores.

Em suma, cada um avalia a riqueza como quiser. Para muitos, ela pode ser simplesmente despertar, ir ao espelho e ver que tudo continua aparentemente no mesmo no lugar da véspera, o que não deixa de ser uma proeza.  

Ou, no dizer poético da canção de Naomi Shemer, a maior compositora da curta história de Israel, "lakum mahar baboker im shir hadash balev", ou seja, "acordar amanhã cedo com uma canção nova no coração".


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