Redes sociais

Senso de medida é o que deveria reger o mundo. Mas sabemos que não é assim que a caravana anda

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho fala da sua relação com as redes sociais

Depois de 30 meses com perfil no Facebook, ganhei fama de "expert" entre meus amigos. Segundo alguns deles, se faço postagens regulares, significa que estou tendo algum "retorno" com a experiência. Pois bem, a quem interessar possa, a resposta é sim e não. Posto regularmente porque escrevo para revistas e jornais que me autorizam essa divulgação, o que nem todos concedem. 

Quando digo sim, que estou satisfeito com o alegado retorno, ele se cinge ao prazer de interagir com uma fração ínfima de pessoas da rede com quem descobrimos afinidades esporádicas. Elas já valem a experiência embora em poucos casos o encontro virtual tenha se transformado em um "tête à tête". Na maior parte das vezes porque a relação não está concebida para tal. 

Quando digo não, que não estou satisfeito, refiro-me ao fato de que as mudanças de algoritmo têm feito com que se receba quase sempre mais do mesmo. Se isso aplacou o vale-tudo de dois anos atrás, a experiência se esterilizou a um ponto tal que todo dia corto pelo menos umas 30 pessoas que vieram parar na lista de amigos por obra e graça do impulso mútuo, dissociada de qualquer afinidade. 

Alguns me perguntam sobre o Instagram. Bem, na verdade tenho uma conta lá, mas confesso que não me balança o coração. Tirando algumas fotos realmente originais, o resto se compõe de cenas de vida doméstica sem maior interesse. Há casos em que a pessoa posta uma dúzia de fotos de si mesma em diferentes ângulos no espaço de meia hora, o que a habilita a ir a um psiquiatra. 

No Instagram, textos não são proibidos, mas como ele nasceu muito associado à foto, o que se escreve ali é mera ilustração da imagem. De mais, talvez pelo fato de ter ficado restrito durante muito tempo a portadores de um tipo de plataforma cara, há muita peruagem, muita frivolidade e total descompromisso com a compatibilização de imagem e conteúdo. Daí ser o favorito dos menos maduros. 

O Twitter é mesmo uma ferramenta crucial para jornalistas e para quem lida com a notícia a quente. Em 90% dos casos, postam-se links, acompanhados de uma ou outra frase de encaminhamento, geralmente ferina e irônica. Não é dos espaços o mais convivial e as regras que regem a linguagem são as mais estapafúrdias. Intelectuais se xingam de lobotomizados e fica por isso mesmo.

Isso dito, lamento que só tenha descoberto as redes sociais muito tarde, quando a maioria das pessoas interessantes já cansara um pouco delas. Por outro lado, isso me propicia ter um pé nas três, sem para tanto hipotecar mais de uma hora ao dia ao gerenciamento dos conteúdos. Acho inquietante o tempo anormal que muito adulto passa de olho na tela, trocando figurinhas com desconhecidos. 

Senso de medida, no fundo, é o que deveria reger o mundo. Mas sabemos que não é assim que a caravana anda. Que acolhamos nossas imperfeições como um fato da vida e não como ofensa. "Penso", como diz o dramaturgo Leo Lama. 


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