Sobre escrever livros

Por que as pessoas abdicam de algumas de suas aptidões mais caras e rentáveis para escrever romances?

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Dos tantos mistérios que me acompanharão até o fim da vida, um deles talvez seja o mais intrigante: por que as pessoas escrevem romances? O que há de tão cativante na literatura para que elas abdiquem de algumas de suas aptidões mais caras e rentáveis em favor do ofício ingrato de colocar uma palavra atrás da outra, para daí extrair frases que comporão parágrafos? E que, depois de somados centenas deles, o autor concluirá que chegou ao formato hipotético de um livro. Este, por sua vez, será enviado a editoras, não raro acompanhado de uma sutil carta de súplica. No mais das vezes, elas sequer se dignarão a mandar uma resposta. É ou não um enigma? 

Ontem mesmo estava cercado de escritores numa festa de lançamento. À mesa, era voz corrente o paradoxo da profissão. Imagine-se que o autor tenha já uns 70 anos, 15 livros publicados e 5 prêmios importantes no currículo. Pois bem, era o caso do homenageado de noite passada. Depois de passar dois anos dedicado a escrever, dormindo e acordando com os personagens borboleteando na mente aprisionada, eis que a editora manda o aguardado sim, juntamente com o contrato. O que caberá ao autor? Ora, no afã de ver seu livro nas prateleiras, ele concorda com a praxe de mercado. Receberá 10% de remuneração do valor de capa do livro vendido em livraria. 

Desdobrando o raciocínio, o que teremos? Impressa uma tiragem de mil unidades, admitamos que a editora tenha boa distribuição e algum prestígio junto às livrarias. Assim sendo, se o livro de 200 páginas custar ao leitor R$ 40,00, ao autor caberá a bagatela de quatro reais por exemplar. Se a noite de lançamento for coroada de muito sucesso e amigos e parentes acorrerem em massa para comprar a estratosférica quantidade de 200 exemplares, o escritor fará jus a R$ 800,00 – o que equivale à renda líquida semanal de um taxista mediano em São Paulo, desses que não trabalham nem muito nem pouco, digamos cinco dias por semana à razão de nove horas ao dia.         

Mas sejamos otimistas e imaginemos que um mês depois de lançado, por um lance de sorte e mérito, o livro seja resenhado num grande jornal e o crítico admita que se trata de um dos dez melhores lançamentos do ano. Na semana seguinte, mais 200 exemplares serão escoados e, por um momento, o escritor será capaz de jurar que se avizinha da glória suprema. Pois bem, em termos práticos isso significa que ele fará jus dentro de mais uns 90 dias, a outra parcela de R$800,00. Nesse intervalo, passados os dois eventos que poderiam lhe ter catapultado para a lista dos mais vendidos, ele terá se convencido de que ainda não foi dessa vez que acertou a bola na veia. 

E então, o que fará? Escreverá um currículo e se resignará a bater à porta do mercado publicitário pedindo um emprego que lhe garanta o mínimo de equidade vis-à-vis seus esforços e talentos? Que nada. Amargando o escárnio de familiares e amigos, ou transformado em alvo da caridade alheia – toda ela feita de condescendência –, ele não tardará a abrir o computador e a começar outro romance. Ao cabo do primeiro ano do lançamento da obra original, ele terá recebido umas pingadas médias de R$150,00 ao mês, mas para ele aquele dinheiro é melhor do que qualquer outro. Ao começar o livro seguinte, uma voz interna lhe soprará: "Vá fundo que no próximo a glória o espera".   

A economia poderia se dedicar mais ao estudo dessas mentes amalucadas, meio surreais, para lhes entender as motivações profundas. Quem conseguir decifrar a charada, fará jus ao prêmio Nobel de economia. Ou, se também tiver propensão para ser um incorrigível, talvez saia da Escandinávia com o Nobel de literatura, para desespero de milhares de escritores de renome que achavam que sua vez tinha chegado. Ontem, cercado por aqueles semblantes carregados e olhares argutos, ocorreu-me porque eles tanto se visitam e tanto se apoiam mutuamente. É que sem esse suporte, a caça ao leitor se revelaria tão extenuante quanto desesperadora. Longa vida aos artistas.


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José Carlos Aragão

"Poetas são chegados a viver noutra real." (De uma canção de Sá & Guarabyra que nos conforta, mas não explica.)

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