A Copa de Casagrande

O que deve ser terrível na vida dele é exatamente o que é glorioso: a batalha é diária e qualquer descuido é fatal

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Casagrande, comentarista da TV Globo

Eu já ia desligar a televisão no domingo, ainda meio contrafeito com um resultado amargo para a briosa esquadra croata, quando a voz do hoje comentarista Walter Casagrande destoou do tom geral das transmissões. Mal contendo as lágrimas, registrou no ar que ele pessoalmente lograra um grande feito na Rússia. Pela primeira vez, chegava a uma Copa "limpo" e dela se despedia igualmente "limpo". 

Logo imaginei, pelo pouco que sei desse filho do bairro da Penha, em São Paulo, que ele se referia ao fato de não ter feito uso de drogas no período. Se conheço alguma coisa a respeito, isso vale dizer que sequer uma cerveja ele pôde tomar, sob pena de disparar um gatilho perigoso que o levaria à vodca, depois ao cigarro e, por fim, à cocaína e assemelhados, a mãe de todos males dessa cadeia destrutiva.  

Nesse momento, senti que a voz de Galvão Bueno também travou e até eu levantei do sofá e fui até a varanda ver a praia para desafogar a emoção. Contrariamente ao que se pensa na juventude, a vida não é sempre fácil. E vendo ao longe os arrecifes onde tanto navio já naufragou, alegrei-me de constatar que o ex-atleta, expoente da Democracia Corintiana e alma de roqueiro, merecia mesmo um grande aplauso naquela hora.

Sempre fui bom biriteiro. Aos 20 anos, apreciava os bons uísques, marca registrada da iniciação do time de pernambucanos a que pertenci. Nas viagens mundo afora, tomei um pouco de tudo e, como acontece a essa altura do campeonato, estaciono na cerveja e nos vinhos, com rara incursão aos destilados. Mas quando resolvo tomar uma branquinha ou um Cognac, não sou de parar na primeira ou na segunda dose. 

É como se internamente se abrissem umas comportas mais recônditas. Em volta de uma taça de tinto, prevalece um modo convivial, gregário, intimista e sensual. Passado o quarto "single malt", é como se um leão da Caledônia começasse a rugir dentro da jaula e precisasse do espaço livre das savanas para exercitar os instintos. Então estufo o peito, acho-me subitamente iluminado e dou palpite até sobre pesca submarina.

De qualquer forma, certo ou errado, bebo cada vez menos. É lógico que tenho amigos que têm a cara de um drinque e então não serei desmancha-prazeres. Um gosta de tomar saquês exclusivos. Outro dá aula sobre cervejas belgas. E em Pernambuco, são raros aqueles que não achem normal pedir uma garrafa de uísque à mesa, desde que já tenha passado das 8 da manhã. Mas são ocasiões de exceção. 

Quanto às drogas a que certamente se referiu Casagrande, sou um fracasso. A cada dois anos, alguém oferece uma guimba de maconha e lá vou eu dar um tapa, como eles dizem. Cheirei cocaína em festas nos anos 1980-1990, mas me distanciei dela quando percebi que saí de uma festa no Sumaré, em São Paulo, e fui bater em Paraty, no Rio, sem quaisquer lembranças sobre o trajeto a dois.   

O que deve ser terrível na vida de Casagrande é exatamente o que é glorioso: a batalha é diária e qualquer descuido é fatal. Soube certa feita de um industrial paulista que foi fazer desintoxicação alcoólica nos Estados Unidos porque a família achava constrangedor expô-lo a isso no Brasil, onde era conhecido. Após quatro meses em Rhode Island, depois de acompanhamento psicológico, recebeu alta e comprou a passagem de volta.  

Na primeira classe da Varig, encontrou um amigo que lhe deu parabéns pela excelente forma física. Decolaram, a conversa ganhou corpo e vendo que a situação estava sob controle, resolveram tomar um uísque. Só um para festejar as vitórias. O primeiro puxou o segundo e assim por diante. Dez horas depois, no desembarque de Guarulhos, a família não acreditou no que viu. Na semana seguinte, ele voltou para os Estados Unidos para recomeçar tudo. 

Parabéns, Casagande. Sei que a lucidez pesa e é chata certas horas, quase insuportável. E tem gente tão sem sal que não conseguimos suportar a seco. Mas tanto melhor que você não tenha escolha, amigo velho. Se quiser, te mando depois minha lista de águas minerais favoritas. Vai da Serra Branca, de Garanhuns, à Ramlösa sueca. Mas essa é outra história e ficará para um dia. Faça boa viagem e fique atento aos amigos que encontrar a bordo.      


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