Portugal, aceite-nos de volta

Depois não digam que deixei de dar minha cota de contribuições disruptivas ao debate eleitoral

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Bandeiras do Brasil e de Portugal

Longas caminhadas solitárias pela praia podem dar lugar a devaneios perigosos, mesmo que o sol seja comparativamente brando nesses dias de julho em que o vento morno penteia as areias. Vistas de perto, elas mais parecem micro dunas saarianas. Pois foi ao final de uma caminhada que, preocupado com o debate político que se instaurará no pós-Copa do Mundo, ocorreu-me uma ideia disruptiva. 

Num mundo em que todos os arranjos são legítimos, desde que propiciem a inclusão social, a valorização da cidadania e pequenas vitórias contra o chamado desemprego estrutural, a corrupção endêmica e a favor da esperança, que tal se um candidato propusesse a restauração de nosso status de colônia de Portugal? Sem espertezas e com pureza de alma, uma delegação compareceria a Lisboa e faria a generosa oferta. 

Como é próprio da natureza humana desconfiar de grandes presentes, ditos "de grego" por razões que remontam a Troia, seria importante embalá-lo bem. Assim, em carta que seria levada concomitantemente ao primeiro-ministro e ao presidente da república, nosso embaixador seria portador de uma mensagem vazada mais ou menos no teor que segue, aqui retirados aos rapapés protocolares tais como data e signatário. 

"Exmo. Sr. Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, 

Não se pode voltar à casa paterna sem saber se somos bem-vindos. E se nossas rebeldias independentistas de quase dois séculos atrás podem ser creditadas a essa altura a um momento de desvario, já que países também vivem a adolescência e, convenhamos, tínhamos bons motivos para achar que poderíamos cuidar de nós mesmos sem quaisquer tutelas. 

Do lado de cá, pois, até que tivemos alguns feitos. Mas, francamente, por razões de ordem inescrutável, às vezes injustamente atribuídas a vocês, estamos arrependidos. Por motivos que gostaria de tratar diretamente, ficaríamos felizes em ver restaurada a velha ordem. O termo colônia por certo é anacrônico e poderia ter algo de pejorativo. De resto, já somos todos colônias da China. Queremos ser um protetorado luso. 

Com isso, vocês passam a ser um dos celeiros do mundo. A União Europeia – já representada pelo euro na Guiana Francesa –, se espraiará até o fronteira de Iguaçu e seremos a grande ponte de integração entre a Lapônia finlandesa e os contrafortes guaranis. Daremos direitos plenos e imediatos aos portadores de passaportes da lusofonia dos dois lados do Atlântico e podemos também convidar Angola.  

Como nossos ministros do STF passam mais tempo em Lisboa do que em Brasília, extinguiremos a Corte e estaremos sujeitos à vossa. O mesmo vale para o Legislativo que deixa de funcionar em Brasília e será saneado segundo os termos acordados internamente por vosso Parlamento. Suspenderemos as conversas com a Boeing envolvendo a Embraer para que possamos ouvi-los a respeito desse tema critico. 

Seremos, ademais, uma potência futebolística de marca e redesenharemos o uniforme para contemplar o verde e amarelo do velho país. Ganharemos todos escala, massa crítica e queremos trabalhar segundo as regras portuguesas, logo comunitárias, que tanto bem lhes têm feito. Avise se Portugal está em princípio de acordo. Se este for o caso, incorporaremos isso à nossa campanha e a lusofonia terá lavrado um tento". 

O que parece? Depois não digam que deixei de dar minha cota de contribuições disruptivas ao debate eleitoral.


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