Aos 94 anos, o campeão Anton Karl Biedermann conta sua trajetória

Líder empresarial figura entre os Top 10 no ranking da Federação Internacional de Natação em diversas modalidades

Da Redação

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Anton Karl Biedermann lança sua biografia
A sede da Associação dos Dirigentes de Marketing e Vendas do Brasil (ADVB/RS), em Porto Alegre, recebe o lançamento do livro “50 Metros a Mais...” na próxima segunda-feira (16). A obra conta a trajetória de Anton Karl Biedermann (na foto, ao lado das centenas de medalhas que conquistou praticando esportes), um dos grandes líderes do Rio Grande do Sul. O evento inicia às 19h com um talk show comandado pelo jornalista Tulio Milman. A autora do livro, Suzana Naiditch, ouviu depoimentos de diversas pessoas que convivem e conviveram com ele. Na apresentação, Rafael Biedermann Mariante, presidente da ADVB/RS, traz a sua visão sobre Anton Karl Biedermann como neto, destacando os exemplos e aprendizados que recebeu do avô.

Biedermann, 94 anos, é natural de Rio Grande (RS). Viveu em São Paulo na adolescência e depois fixou-se em Porto Alegre, onde se formou em Ciências Contábeis e Economia pela PUC-RS. Em 1958, como profissional liberal, criou a Diehl, Biedermann & Bordasch, empresa de auditoria que deu origem à PwC, uma das maiores do Brasil, que é parceira de AMANHÃ no projeto 500 MAIORES DO SUL, maior ranking regional de empresas do país. Biedermann também foi Presidente da Federação das Associações Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul (Federasul) por sete anos (1990 a 1996). Também dirigiu o Conselho de Administração do Sebrae (1997 a 1999). A partir de 1998, presidiu por dez anos o Conselho de Administração da Polo-RS.

Desde muito jovem participa do Grêmio Náutico União, como atleta de natação, polo aquático e remo. Presidiu o clube em quatro gestões e tornou-se Presidente Honorário, do Conselho Deliberativo, do Conselho Superior sendo atualmente o Patrono do clube. Há quase duas décadas figura entre os Top 10 do mundo no ranking da Federação Internacional de Natação em diversas modalidades. O livro traz artigos divididos em cinco partes: “O Homem”, “O Esportista”, “O Profissional”, “O Líder Empresarial” e “O Crítico”. Leia, a seguir, pequenos trechos inéditos de “O Esportista”, onde Biedermann conta sua relação com o clube que lhe ensinou a amar o esporte; “O Homem”, que conta como ele optou pelo curso de contabilidade; e “O Líder Empresarial”, que fala da sua condução à cadeira de presidente da Federasul. 


Parte 1 - O Homem

O contador

Após o serviço militar, em 1943, fui estudar contabilidade à noite, pela necessidade de aprender algo que me proporcionasse exercer uma profissão. Fiz o curso contrariado, pois não gostava da matéria. Tanto é, que nem fui à minha formatura. Recebi o diploma no gabinete do diretor da faculdade e disse baixinho para mim mesmo: 'juro que nunca vou exercer essa profissão. 

O que eu gostaria mesmo era de ter estudado Medicina. Quando estava na escola, em São Paulo, fui muito influenciado por um professor de História Natural que levava pequenas cobaias para os alunos 'operarem' na aula. 

Esse professor era muito incisivo e convincente e, constantemente, dizia que havia profissões dignas e outras indignas. Já naquela época havia uma mentalidade generalizada contra o empreendedorismo e indignas eram todas aquelas ligadas a atividades empresariais e, portanto, vinculadas à indústria, ao comércio, ao lucro.

Um pouco mais tarde, descobri que toda a profissão honesta, bem exercida, com dedicação, com eficiência, com prazer é digna.

Lembro da história de um famoso pintor argentino: já rico, ele participava de uma festa da alta sociedade portenha. Um dos participantes, querendo depreciá-lo, disse: 'Lembro-me de você adolescente, engraxando os meus sapatos na rua.' Sentindo o deboche, o artista simplesmente perguntou-lhe: 'Por acaso estavam mal engraxados?'


Parte 2 - O Esportista

O União 

Lembro como se fosse hoje da minha chegada ao Grêmio Náutico União, onde passei a viver boa parte da minha vida. Acredito até que tenha permanecido mais horas dentro do União do que nas diversas casas onde morei. Durante anos e anos, frequentei o clube pela manhã, à tarde e à noite. Ali, criei grandes amizades. A maior parte do que aprendi, especialmente em relação ao comportamento humano, foi no União. Foi também onde meus quatro filhos se criaram. Lá conheci minha primeira mulher, Olga Helene, já falecida. Uma vida inteira. O clube é minha segunda casa.

Quando minha família mudou-se de São Paulo para Porto Alegre, em 1941, a primeira coisa que fiz foi procurar um clube para nadar. Tinha um tio norueguês, Jens Ashton, que me levou ao tradicional clube Guaíba Porto Alegre (GPA). Cheguei lá com a minha medalha de vice-campeão paulista e o presidente ficou encantado. 'Vai ser um reforço para o nosso time', disse. 

Mas, quando voltávamos para casa, no DKW do meu tio — um carrinho importado da Alemanha, passamos em frente ao União. A sede era uma espécie de um castelinho, um chalé azul e branco, na Voluntários da Pátria em frente à Rua Hoffmann. Achei muito simpático e, no dia seguinte, peguei o bonde Petrópolis, que ia até o Hospital Beneficência Portuguesa, na Avenida Independência e, dali, segui a pé até o União. Fui atendido pelo ecônomo. 

— Como é que eu faço para me associar? 

Assinei a proposta na hora, mesmo sem saber como pagar a mensalidade. Em seguida, passou por nós um jovem que mais tarde viria a ser presidente de União, Carlos Hoffmeister Filho.

— O que tu fazes? Sabe nadar? 

Mostrei minha medalha de vice-campeão paulista. 

— Então vais entrar como sócio atleta, isto é, isento de mensalidade.

Foi uma sorte. 

Nós morávamos na casa do meu avô, na rua Cel. Corte Real, no bairro Petrópolis, e ele me dava as passagens de bonde para ir até o União. Era uma viagem. Poucos se lembram disso, mesmo no calor monumental do verão e até para ir ao clube, os homens precisavam vestir casaco e colocar gravata para entrar no bonde.

A Protásio Alves não tinha calçamento , era de barro vermelho puro. 

Entre os clubes náuticos que existiam na rua Voluntários da Pátria, o União era um dos menores, mas havia um ambiente de muito entusiasmo e vibração. A natação, o polo aquático e o remo eram seus esportes principais. Havia campeonatos muito brigados, literalmente. Aconteciam discussões e até pugilatos homéricos. As pessoas eram fanáticas pelos seus respectivos clubes. 

Hoje o União está quase sozinho no remo e na natação, pelas dificuldades que os outros clubes têm de manter esportes dessa natureza. E isso é ruim para o clube e para o esporte como um todo.. A competição sempre foi muito importante e muito motivadora. Ela desaparecendo, perde-se muito do entusiasmo e da alegria que se tinha em defender o União. Era emocionante.


Parte 4 - O Líder Empresarial

A reeleição

Em julho de 1992, Biedermann foi mais uma vez conduzido à cadeira de presidente da Federasul. Dessa vez, no discurso de posse, ele falou da situação do país e reforçou a importância dos 10 pontos defendidos pela entidade:

(...) Houve, nesses dois anos, um progresso sensível na mentalidade da sociedade brasileira em relação ao papel do Estado na economia. Já são aceitas com certa naturalidade as privatizações, a liberação do trabalho nos portos e até mesmo o malfadado monopólio da Petrobrás começa a ser discutido com menos passionalismo.

Mas a luta contra a inflação, o clientelismo, o corporativismo, o gigantismo do Estado, a miséria, a ignorância, acrescidas da corrupção, pecado original na estrutura do Estado brasileiro, está sendo até o momento, vencida pelos inimigos de nossa Pátria. Inimigos que estão aqui dentro, incrustados em todas as camadas sociais e em todas as categorias profissionais, e se aproveitam da boa fé e da ignorância de grande parte da população brasileira para impedirem a modernização das ideias da economia e, com isso, extraírem proveitos pessoais ou para seus grupos corporativistas. (...) Os problemas são enormes e, a cada dia, mais se mostram atualizados os 10 pontos básicos que constituem a bandeira de nossa entidade. 

Ele encerrou o discurso, lembrando que 'o social, preocupação de todos os homens de bem, não poderá jamais se antepor à eficiência econômica e que a história penaliza implacavelmente os povos que se atrasam.'


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