A Rússia no detalhe

Eis um pequeno glossário não muito convencional para você entender alguns dos códigos que permeiam a vida russa

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Vista da Rússia, sede da Copa do Mundo 2018

Eis um pequeno glossário não muito convencional para você entender alguns dos códigos verbais e não-verbais que permeiam a vida russa. Ofereço-o na intenção de que as paisagens físicas e humanas desse país fascinante continuem nos mobilizando por mais alguns dias e que tenhamos sobrevida na Copa do Mundo. Mas se este não for o caso, os verbetes abaixo terão sempre alguma utilidade.   

Fura-neve
Aprendi recentemente que é como os russos se referem aos chamados bêbados do degelo. Geralmente são moradores de rua, mas pode perfeitamente aplicar-se a qualquer cidadão que, tendo tomado um porre no inverno, tenha ficado submergido na neve. Na primavera, um passante então descobrirá o cadáver rígido sob as camadas derretidas. 

Verão de avó
Acontece em meados de setembro quando as babushkas, aquelas matronas sempre atarefadas que caminham pelas calçadas carregando uma sacola, têm direito a uma pequena trégua depois da colheita em suas hortas e plantações. Pouco antes da chegada do outono e depois da volta à aulas, elas têm uns dias de alento e usufruem de um verão temporão. 

Eta pravda
Não, ao ouvir essa expressão, não pense que eles estão se referindo ao velho jornal da era soviética, que ecoava a voz oficial do Kremlin. Pravda aqui significa o que o pasquim de antigamente pretendia sintetizar: a verdade. Portanto, quando se diz "da, eta pravda", significa simplesmente "sim, isso é verdade". Como dizem os japoneses, informação nunca é demais.

"Só nas ratoeiras é que há queijo de graça”
Ditado muito comum de se ouvir no dia a dia moscovita. Especialmente quando ocidentais se encantam pela beleza singular das russas com que deparam no metrô, nos cafés e na solidão desolada dos parques e se apaixonam. Tanto enlevo pode camuflar da parte dela uma mente calculista, pronta para tirar vantagens dos olhos vítreos de lince. 

Cardápios
Uma vez no restaurante, não se espante se ao lado dos pratos figurar uma ou duas colunas, além daquela dos preços. Elas assinalam o peso dos ingredientes. Por exemplo, file ao molho de mostarda: 250 e 30. Quer dizer que a carne pesa um quarto de quilo e o potinho de molho 30 gramas. O mesmo vale para bebidas em geral, especialmente a vodca tomada a granel.

Alcoólatra
O gesto nacional para definir um bêbado é o de dar um peteleco no pescoço com o dedo indicador. Grandes bebedores desde sempre, são notórios os desajustes que a bebida traz à saúde pública e ao cotidiano nacional. Assim, na falta de querer usar a palavra bêbado o tempo todo, eles fazem esse gesto compreendido de Vladivostock a Murmansk. É engraçado, mas embute uma tragédia. "Nazdarovie" é saúde, aliás, na hora dos brindes.

Kommunalka
Era como se denominavam os apartamentos comunitários onde até cinco ou seis famílias dividiam as instalações de uso comum, no caso cozinha e banheiro, contentando-se (ou tendo que se contentar) com aposentos acanhados para a vida privada. São antológicas as brigas de vizinhos – e as intrigas que davam origem a denúncias às forças repressoras do Estado ou mesmo à polícia. 

Mokri sneg
Para um povo que se acostumou desde cedo a tanta neve, é normal que ela assuma diferenciações de nomenclatura segundo o tipo. Diz-se que há mais de 20 palavras para defini-la, de acordo com textura dos flocos. É como o "verde" em algumas culturas africanas. No caso em referência, trata-se da neve liquefeita, que praticamente se desfaz ao tocar o chão. É comum na primavera. 

Feis kontrol
Mistura de leão de chácara com relações públicas. Trata-se daquele pessoal que se comunica por rádios na lapela e que controlam quem pode ou não ter acesso a um lugar da moda ou muito badalado. Pelo visual do visitante, e pela suas conexões, eles saberão julgar se convém ao "mix" de gente do lugar e, sobretudo, se têm dinheiro para gastar. Têm poder de vida ou morte na porta de uma boate de prestígio e sabem farejar o poder.   

Salmão e vodca
Os russos podem ser muito orgulhosos de algumas de suas exuberâncias. Por exemplo, nos rios de Kamchatka encontram-se nada menos do que 11 variedades de salmão. Nas degustações, eles dizem que "peixes gostam de nadar". Está dada a senha para que se abra uma garrafa de vodca e, é claro, para que se jogue a tampinha no lixo. Só restará à mesa esvaziá-la. 


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