As novas quadrilhas juninas

Elas estão muito mais para coreografias carnavalescas do que para os velhos e bons arraiais de antigamente

Por Fernando Dourado Filho , de Gravatá (PE)

Fernando Dourado Filho comenta a formação das novas quadrilhas juninas

Gosto de estar no Nordeste nessa época do ano. Mais do que durante o Natal ou até no Carnaval, a atmosfera das festas juninas remete de imediato a um período da infância em que o ano letivo estava em pleno curso. Assim sendo, fazíamos as comemorações entre colegas, dançando quadrilha, ouvindo forró de raiz e provando comidas à base de milho. 

Para dar um toque extra à atmosfera reinante, as fogueiras que se acendiam no Recife e arrabaldes faziam com que uma garoa pairasse sobre a cidade e mesmo quem não ia para o interior, tinha a chance de assar milho direto na fogueira, deslumbrar-se com os fogos de artifício, o que incluía, para os maiores, manusear rojões e vulcões que coloriam o céu da noite. 

É óbvio que as quadrilhas eram o ponto alto. Muitos de nossos colegas participavam de algumas delas: na escola, no edifício onde moravam, no clube que frequentavam. Assim, as expressões francesas cortavam o ar e nos divertiam: "en arrière"; "à l´avant tout"; "balancez". Se tínhamos a sorte de achar o par perfeito, então era o paraíso. 

É óbvio que com a evolução dos costumes, uma expressão que arrepia os sessentões como eu, muita coisa mudou. Já há restrições severas às fogueiras e aos fogos. No Recife, ainda chove na época, mas o manto de garoa já não é o mesmo que, em nosso entender, dava ares enevoados e europeus à cidade tropical e litorânea. Mas não é só isso.

Digo-o pois algumas coisas causam verdadeira estranheza. A primeira é o advento de músicas bastante estranhas à nossa riquíssima tradição. Os chamados "sertanejos" do Centro-Oeste cabem tão pouco na festa quanto os bizarros forrós ditos universitários, uma invenção cearense que pasteuriza os ritmos, introduz saxofones e mata as letras da composição. 

Mas nada surpreende tanto e tão mal quanto as tais quadrilhas estilizadas. Elas estão muito mais para coreografias carnavalescas dignas do Sambódromo do que para os velhos e bons arraiais de antigamente, onde os trajes improvisados e as palavras divertidas e melódicas emprestavam encanto ao folguedo por que todos nós esperávamos tanto. 

Essas quadrilhas de que falo hoje contam com centenas de integrantes. As roupas são de um espalhafato circense e são feitas para impressionar as câmaras de televisão. Os enredos quase não existem e, se existem, ficam sepultados por uma parafernália de acrobacias extravagantes que têm tanto a ver com a época quanto o xaxado teria para os salões de valsa. 

Em favor dos tais concursos da "melhor quadrilha", dizem que é bom para os negócios. Que aquela carnavalização movimenta o comércio e que os prêmios motivam as chamadas comunidades a se organizarem em torno de uma diversão saudável e, para alguns, bastante rentável. Para mim, não deixa de ser uma pena. Acho de péssimo gosto essa combinação. 

Mas quem manda ser saudosista? Há de se pagar um preço para cada etapa vencida na vida. Felizes dos que podem viver isso. É, como dizem, melhor do que a alternativa.  


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