Vietnã em ritmo chinês

Nesses ritmos lá e cá, em breve o Brasil importará café, aço, cimento e cabrito do Vietnã e da China

Por Milton Pomar

Colheita de café no Vietnã

O Vietnã deverá produzir 30 milhões de sacas de café na safra 2017/2018, quase 19% do total mundial de 160 milhões de sacas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. País pequeno (331 mil quilômetros quadrados), com 95 milhões de habitantes cuja tradição é o consumo de chá, o Vietnã agora só perde em café no mundo para o Brasil, que nessa safra deverá alcançar 51,2 milhões de sacas. 

Essa notícia joga para o espaço definitivamente o sonho de alguns brasileiros de que “se cada chinês tomasse uma xícara de café...”, pois o Vietnã faz fronteira com a província chinesa de Yunnan, no sul da China, e por isso o seu café deve chegar a um preço muito competitivo em todo o país. Como agravante, Yunnan, famosa pela produção de chá, também produz café (2 milhões de sacas) e assim como o Vietnã exporta a maior parte da produção. Pelo que se sabe, quem investiu para que isso ocorresse foi a Nestlé, que estimulou a produção de café em Yunnan (e possivelmente também no Vietnã), há 30 anos, com agrônomos e capital para o plantio e tratos culturais. 

Ainda que o Vietnã, segundo maior produtor de café surpreenda e até preocupe, o que mais impressiona agora no país – totalmente devastado pelas guerras com a França e os Estados Unidos (EUA) nos anos 1940/1970 e em 1979 com a China – é o seu acelerado desenvolvimento econômico, explicitado pelo consumo de aço e cimento. Sua produção de aço em 2016 atingiu 7,8 milhões de toneladas, o que o coloca em um distante 19º lugar mundial, mas nesse ano foi o sexto maior importador de aço, com 19,5 milhões de toneladas. O país também figura como segundo maior importador líquido de aço do mundo, com 17 milhões de toneladas (de acordo com o World Steel 2017 in Figures), só perdendo para os EUA (que importa 21,7 milhões de toneladas).  A previsão para este ano é de aumento de 20% da produção, em contexto de conflito comercial com os Estados Unidos, que acusam o país de estar revendendo aço chinês com acréscimo de qualidade. 

Quanto ao cimento, em 2016 o Vietnã foi o nono maior produtor, com 66,8 milhões de toneladas (próximo do consumo brasileiro, de 78 milhões de toneladas), e o sétimo maior exportador, com 4,4% do mercado mundial, segundo o International Cement Review and IBEF 2017. 

Ao saber desse Vietnã em ritmo chinês, lembrei-me que há oito anos recebi encomenda de 40 toneladas por mês de carne de cabrito para o Vietnã. Fui para a Bahia, onde há grandes criações de caprinos, na esperança de obter as tais 40 toneladas com facilidade. Não consegui um quilo. O diretor da maior empresa do estado me disse que não davam conta de atender a demanda interna, “imagine ter essa quantidade toda para exportar”. 

Nesses ritmos lá e cá, em breve o Brasil importará café, aço, cimento e cabrito do Vietnã e da China. 


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