Czar 5, Sheik 0: saldo de uma estreia

Um time é um pedaço de uma tribo soldada por senso de pertencimento. Se vitorioso, o líder recebe parte dos créditos

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Rússia 5 x 0 Arábia Saudita, jogo de abertura da Copa do Mundo 2018

O príncipe e Ministro da Defesa da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman, não estava com ares muito amigáveis à medida que os russos prevaleceram e aplicaram, no jogo de abertura da Copa de 2018, a bagatela de cinco gols nas redes dos visitantes. No primeiro gol, Putin ainda ensaiou um cumprimento amistoso, um gesto de simpatia, no que foi apenas preguiçosamente reciprocado. Daí em diante, nem isso. Soturno, certos momentos Sua Alteza parecia ausente. 

Seja como for, por bons que possam ter sido os entendimentos entre os dois expoentes do petróleo, em que trataram da aliança da Rússia com a OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] – e sabe Deus e apenas alguns banqueiros o quanto Putin gosta de assuntos ligados à energia, que o diga a Gazprom –, o ar no vestiário muçulmano deveria estar irrespirável depois da sova monumental, por ninguém esperada. E quem viu o jogo, bem sabe o quanto foi merecida. 

Como se sabe, a matriz autoritária da sociedade saudita faz com que as repreensões não se pautem propriamente por manuais de psicologia esportiva. Para os filhos do deserto, o mandatário se confunde com a divindade. Mesmo que estivessem com as pernas meio bambas depois das dietas forçada do Ramadã, que acaba nesta quinta-feira, isso não os livrará de puxões de orelhas literais. Afinal, vendo de fora, o futebol parece fácil e a ingenuidade flagrante choca o espectador. 

Quanto a Putin, aqui dito o Czar, é crescido e frio o bastante para saber que por muito que sua seleção tenha surpreendido logo na estreia, dificilmente chegará às fases finais. Para ele, contudo, importante é que tudo saía de conformidade com as boas normas da organização. Nos meandros do submundo, uma rede de informantes deve estar atenta a qualquer sinalização que aponte para um atentado terrorista, o calcanhar de Aquiles do país-sede, inclusive o islâmico.     

Em quaisquer latitudes, certo é que a trégua da bola anaboliza o capital político de mandachuvas em todo o mundo, de qualquer credo. A lógica é simples. Um time é um pedaço de uma tribo soldada por senso de pertencimento. Se vitorioso, portanto, o líder, por longe que esteja do "front", recebe parte dos créditos. E se as coisas ficam realmente bem, ele se apossa de todos os trunfos. Mas há exceções. E o Brasil de 2018 pode ser uma delas. Mas vamos por partes. 

Que nos divirtamos muito e que vençam os melhores!  


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