Kim e Trump: as leis insondáveis da afinidade

Rogo que o comitê do Nobel não conceda o Prêmio da Paz a essas duas figuras que juntas valem, na verdade, meia

Por Fernando Dourado Filho, de Maceió (AL)

Kim e Trump: as leis insondáveis da afinidade

A história que vou contar é de um escritor iídiche do século passado, já não sei se Peretz ou Scholem Aleichem. Seja como for, a cena se passa num shteitl (vilarejo) da Polônia onde a vida se dava em chão de terra batida, três ruas, barracos de madeira, um comércio insípido e uma pequena sinagoga, que congregava os moradores em torno de um rabino paciente. Tudo corria bem até que um dia um cidadão insuspeito de maluquice, subiu no alto do templo e, aos berros, anunciou que ia se jogar de lá. A cidadezinha em peso acorreu à praça e as autoridades começaram a argumentar que ele não devia fazer isso: "Moishele, se morreres, não haverá ninguém para levar tua filha ao dossel nupcial", dizia um. O rabino alegou que ele perderia a chegada do Messias e o acesso ao paraíso. A esposa veio retirar as queixas de que Moishele não vinha trazendo dinheiro para casa, mas só de vê-la, ele quase se projetou contra o solo. Até que o doidinho do vilarejo pediu para falar. Como tudo já fora tentado e nada surtira efeito, deram-lhe a palavra. Então, ele gritou: "Se você cair dessa altura, você vai quebrar o pescoço". Ao ouvir isso, o suicida começou a tiritar de medo e aceitou auxílio para descer do telhado. Estava em pânico e aliviado de escapar daquela provação.

O que tem isso a ver com Trump e o títere norte-coreano? Bastante, ora. Digo-o porque o desorbitado que queria se jogar do alto da sinagoga para se matar, atribuiu mais peso a livrar-se de um pescoço quebrado do que à própria morte. Um argumento totalmente destituído de força dissuasória foi determinante para que ele abortasse a operação. O doido da cidade continuou sendo doido, apesar de ter recebido afagos por seu dia de glória, mas certo mesmo é que seu argumento pueril colou. No caso de Kim-Jong-un e Donald Trump, quem faz o papel de cada um no enredo do arraial? Ambos, alternadamente. Uma hora Trump rasgou – de novo – a gramática da boa diplomacia e fez por Twitter referências ginasianas à anatomia de seu antípoda. Em igual medida, o coreano destilou juízos tão rasos sobre Trump como alguém jamais deve ter se referido a um ocupante da Casa Branca. E, no entanto, conforme podemos ver em Cingapura, não saiu nenhuma faísca do encontro. Muito pelo contrário, ambos sabiam que obedeciam a um jogo bem coreografado e, no fundo, admiram-se mutuamente. Ainda que mais não seja porque o encontro mascara em grande estilo os crimes inomináveis do coreano e a agenda de trapalhadas de Trump, a última delas no Canadá.     

Vamos, contudo, a algumas conclusões preliminares: 

a) Kim Jong-un jogou certo desde o começo de seu mandato. Aterrorizar a região do Mar Amarelo e soltar bravatas sobre a possibilidade de atingir Guam, San Francisco, Seul e Tóquio, surtiu efeitos, especialmente na mente belicista e fanfarrona de Trump. Ele passou a vida cercado de blefadores e ele próprio se revelou o maior de todos eles ao levar as fichas da mais suculenta das mesas de pôquer, sem sequer acreditar no próprio blefe, que foi a Casa Branca;

b) Kim Jong-un não podia se dar ao luxo de titubear internamente. Se não tivesse demonstrado determinação ao establishment militar que o cerca em tocar adiante o programa nuclear iniciado por seu avô, teria tido o mesmo destino do tio ou do irmão. Se no caso destes infelizes, ele teve de mandar matá-los, no caso dele alguém do entourage próximo o teria feito, sob alegação de traição à pátria. Hoje sabemos que a estratégia tinha lá sua sabedoria;  

c) O jovem Kim sempre atribuiu as mortes de Ghadafi e de Sadam Hussein à falta de uma arma atômica que fizesse as grandes potências pensar duas vezes antes de caçá-los como animais. De mais, ele sabe que parte da força do Irã decorre de seu potencial em aderir ao clube. Israel tem Dimona e um certo equilíbrio só se estabelece quando há temor concreto. Bombas de hidrogênio não são para ser usadas. Mas para dissuadir o oponente de fazer provocações;

d) Isso posto, Trump tinha todo interesse do mundo em explorar uma agenda que tinha passado ao largo da gestão Obama e dos demais precedentes, salvo por acenos de Clinton via Secretaria de Estado. Trump não conhecia prazer maior do que destruir o legado de Obama. Agora achou um mais palpitante. Com sua diplomacia disruptiva, escoltado por Mike Pompeo, tem tudo para receber o coreano em Washington quando quiser, e está lambendo seus dividendos; 

e) Se há uma coisa difícil de ser supervisionada, parece ser o desmonte de um arsenal nuclear. Não se trata de jogar cimento úmido num buraco sem fundo e dar a aventura por encerrada, como já fizemos aqui. Não vou dar palpites maiores sobre as etapas do "how to", mas elas são excruciantes, prolongadas e sensíveis a qualquer quebra de confiança que paire sobre a transparência de propósito das equipes. É quase um jogo sem fim;

f) É claro que tanto Estados Unidos quanto a Coreia do Sul podem, com esforço mínimo, carrear uma enorme onda de progresso ao depauperado feudo do norte. Mas enganam-se os que pensam que Kim quer dinheiro, que é um plutocrata argentário do feitio africano, eslavo ou latino-americano. Dinheiro, convenhamos, ele já tem. O que ele quer, para uso interno e externo, é prestígio e legitimidade. Gordos podem ser vaidosos e, no caso dele, sonha em dormir em paz;              

g) A comunhão de almas lúdicas obedece a cânones misteriosos. Ora, Trump tem filhos da idade de Kim. Quanto a Kim, deve ver Donald na televisão desde que se entendeu por gente. Gera-se daí uma simbiose cheia de mistérios, onde ninguém sabe quem é criador e criatura. Quando Trump disse que em um minuto, saberia se o encontro daria certo – ora, estava tudo acertado –, ele não mentiu. Muito dependeria da química do primeiro olhar, pois assim funcionam os intuitivos;

h) E o avô Xi? Que papel cabe ao Imperador de todas as Chinas? Monitorar com serenidade, sabendo que terá sempre a palavra final. Geopoliticamente, a Coreia do Norte não pode se desgarrar a qualquer custo de seu irmão protetor. Cientes de que um jogo desses se joga no longo prazo, os chineses fazem o dever de casa e acompanham. Antes de se avistar com o presidente da Coreia do Sul, não esqueçamos que Kim fora de trem a Pequim pedir a benção ao mandarim. 

Valeu? Claro que sim. Só rogo a todos os santos que o comitê do Nobel não avance as linhas e não conceda o Prêmio da Paz a essas duas figuras que juntas valem, na verdade, meia – se tanto. Seja como for, tanto Kim quanto Trump cairiam bem no figurino do suicida ou do maluco do vilarejo do começo dessa história. A vida é um teatro. A diplomacia, uma forma coreografada de arte cênica. E a política, bem, nela impera o vale-tudo cênico mais do que nunca.     

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Pedro Tarciso Torres Barbosa

Leitor assíduo de sua coluna além de acompanhá-lo na revista Será. Parabéns pela brilhante análise desse embate entre Trump x Kim.

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