Quando elas cortam o cabelo

No Dia dos Namorados, endereço aos homens uma palavra de acautelamento sobre um fenômeno que sempre me chamou a atenção

Por Fernando Dourado Filho, de Garanhuns (PE)

No Dia dos Namorados, Dourado endereça aos homens uma palavra de acautelamento sobre um fenômeno que sempre chamou a atenção dele

Doze de junho, Dia dos Namorados no Brasil. Sei que muitos de vocês namoram intensamente e que estão convictos de que não se inventou coisa melhor nessa vida. Concordo inteiramente. Em homenagem à data, portanto, achei por bem endereçar ao público masculino uma breve palavra de acautelamento a respeito de um fenômeno que sempre me chamou a atenção, mas que nunca me dei ao trabalho de escrever a respeito da forma refletida e sistemática, como farei a seguir. Vamos lá. 

Como todos sabemos, não há forma de se prever um terremoto. Quando muito, pode-se criar um plano de contingência para o caso de a terra começar a tremer e as estantes despencarem em cima das pessoas. Prever o fenômeno que é bom, continua inescrutável, e é um segredo que brota das entranhas da Terra. A rigor, ondas de frequência podem desativar circuitos elétricos ao menor abalo sísmico, para que trens sejam desligados, evitando que saltem por sobre os trilhos ou emborquem nas curvas. 

Os chineses, mais afeitos à sabedoria empírica dos camponeses, dizem que se sabe que um terremoto pode estar a caminho se as cobras de repente abandonarem suas tocas e se cachorros que normalmente têm uma boa relação entre si, começam a rosnar um para o outro. Se as pessoas moram em áreas costeiras, então procuram sair de perto do mar com medo de ser colhidas pelos vagalhões dos tsunamis. Seja como for, não dá para prever com acerto quando a terra vai chacoalhar. 

Ora, com os seres humanos, especialmente em se tratando daqueles de feição mais mercurial, há de se atentar para os pequenos indícios que só o convívio faculta. Na casa de meus pais, por exemplo, sabíamos que viria uma borrasca pela frente se meu pai tentava assoviar. Digo tentava porque ele não sabia fazer coisa tão simples. Só saía um sopro pela boca que nada tinha de melodioso. Mas era sinal de que estava possesso com alguma coisa. Minutos depois, explodia nem que fosse por banalidades. 

Darei mais um exemplo. Li certa feita que Dr. Drauzio Varella aprendeu com os detentos de quem tratava na penitenciária quando é que "a cadeia ia virar". No linguajar deles, isso significava que uma rebelião eclodiria. Normalmente era quando tudo estava muito calmo, sem a balbúrdia habitual que é própria da normalidade. Lembra a música que Maria Betânia cantava em minha juventude: "Quando o mar tem mais segredos, é quando é calmaria". Mas o que isso tem a ver com nosso tema? Muito. 

Ora, se você é desses resistentes que ainda curtem a companhia feminina e acreditam que o relacionamento homem-mulher encerra muitas maravilhas – antes que seja interditado –, cuidado quando ela aparecer de cabelo sensivelmente modificado na sua frente. Especialmente se algo ali indica, de forma deliberada ou não, que ela não se importou em ficar feia. E que prevaleceu o tal "desejo de mudar". Se isso aconteceu, amigo velho, prepare-se para seu terremoto doméstico de 3 graus. Aqui vão os indícios e antídotos: 

Grau 1 – Se ela aparece com o cabelo desestruturado, simulando mau trato, como se tivesse sido objeto de um corte doméstico e displicente, em clara afronta ao bom gosto, e se as invariáveis amigas disserem que ficou "ótimo" – aliás, elas sempre dirão, salvo quando o corte realmente teve sucesso –, não passe recibo. Diga só "oi, tudo bem? Aliás, também estou precisando ir ao barbeiro". Tome um uísque na sala, cochile no sofá, folheie um livro sobre cinema e deixe-o aberto numa página que mostre Ingrid Bergman bem linda; 

Grau 2 – Cortes radicais sob pretexto de calor, climatério, verão e praticidade. Olhe com severidade, simule uma conversa telefônica com um amigo e diga assim: "Elis Regina podia fazer certas coisas porque com uma voz daquela, tudo era permitido". Administre severa dieta de afagos e monte a situação certa para demonstrar a ela que o combinado sempre é barato, e que a surpresa pode sair cara, se é que é pagável. Ameace processar o cabeleireiro, se a conversa esquentar. Mesmo que fique legal e você se acostume, não deixe de graça;

Grau 3 – Mudança de cor do cabelo em véspera de viagem. É simples. Se ficar uma coisa apapagaiada, dessas que dão vontade de correr para bem longe, cancele a viagem. "Meu amor, eles estão em alerta máximo contra terrorismo. Estão prendendo qualquer pessoa de aspecto suspeito. Você não está em condições de ir assim". E aponte os cabelos. Esperneie à vontade porque você está amparado por todas as razões do mundo e terá ganho de causa em qualquer tribunal da Terra. Véspera de viagem é agravante máxima. Pior do que estrear sapato novo em avião. 

Admitamos, por fim, que você não se enquadre em nenhuma dessas categorias e que, no fundo, admita que ela tem mesmo algumas razões para querer se ver de forma diferente. Então, seja magnânimo. Afague os cabelos em questão, beije-a e diga que ela nunca mais deve mudar de cabeleireiro. Afinal, cá entre nós, mais umas semanas e a gente se acostuma ao que for. Agora se ela mudou de penteado, estreou um perfume novo e anda muito ligada no celular, vá direto para o alerta 4 que o terremoto já chegou. E baixe a cabeça ao cruzar as portas. 

Seja como for, feliz Dia dos Namorados!


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