Frágil, extremamente frágil

A greve dos caminhoneiros e os perigos da dependência excessiva

Por André D´Angelo

André D´Angelo analisa a greve dos caminhoneiros e os perigos da dependência excessiva

Bastaram 10 dias de intensa e coesa mobilização para que os caminhoneiros colocassem o país de cabeça para baixo. Antes de imprecar contra o “rodoviarismo”, convém lembrar que a dependência excessiva de um único sistema, seja ele de transporte, abastecimento ou o que quer que seja, já seria suficiente para preocupar uma organização – que dirá uma sociedade inteira. Fôssemos o país das ferrovias e uma paralisação equivalente causaria os mesmos estragos.

O problema maior, portanto, é a concentração de poder em um único agente ou estrutura, o que o torna uma fonte potencial de ameaças a qualquer momento – e se precaver contra isso é um saudável indicativo de “antifragilidade”, na expressão de Nassim Taleb. Segundo o autor, a era atual dos negócios exige que empresas e nações protejam-se contra pressões externas, sejam elas organizadas (como uma greve, por exemplo) ou casuais (um fenômeno climático). 

Como? Bem, numa empresa, ser antifrágil significa não concentrar mais de 10% da receita em um único produto ou serviço, não ter dívidas elevadas, terceirizar tudo o que não for essencial, descentralizar o conhecimento e as decisões e contar com redundância – ou seja, possibilidade de substituir sistemas, máquinas e pessoas rapidamente. Diminuir as amarras e a subordinação ao acaso e à chantagem, em última análise. 

A lógica da antifragilidade é a flexibilidade e a capacidade de adaptação, e não a robustez monolítica. Ser grande não significa estar preparado para a adversidade ou ser capaz de mudar com velocidade diante de um novo cenário, como bem mostrou a crise mundial de 2008. As empresas que quebraram por conta do choque financeiro eram como Titanics: imensas, fortes e aparentemente firmes, mas incapazes de alterar suas rotas rapidamente ou resistir a um rasgo no casco. Deu no que deu.

O transporte e o abastecimento no Brasil são frágeis, como vimos, mas esta não é uma exclusividade nossa. Uma pane no metrô para Nova York, Paris ou Tóquio; uma greve de pilotos transtorna o turismo mundial; a falta de chuvas derruba o PIB de qualquer país industrial dependente de hidrelétricas. Boa parte daquilo que chamamos de civilização foi construído sobre alicerces um tanto quanto delicados, e este talvez seja o alerta mais importante destas duas semanas que passaram.

Saiba mais sobre “Antifrágil”, de Nassim Taleb, clicando aqui

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