Da arte de sair bem

Quem tem o que entregar, não tem porque se aferrar aos cargos como crustáceos aos rochedos

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Zinedine Zidane, ex-técnico do Real Madrid

Se Pedro Parente tinha alguma dúvida de que chegara a hora de sair da Petrobras, tenho certeza de que o pedido de demissão de Zinedine Zidane (foto) da direção técnica do Real Madrid lhe deu o empurrãozinho que faltava. Pode ser que as circunstâncias de fundo não fossem exatamente as mesmas, mas o exame do mérito pode nos levar a concluir que houve sim um nexo causal entre uma coisa e outra.

Ora, quando chegou ao clube merengue, o que esperava o franco-argelino? O desafio imenso de substituir treinadores consagrados que não vinham logrando tirar do elenco galático e multimilionário tudo o que poderia dar. Ora, enfrentando os céticos da arquibancada e da própria cartolagem, o ex-astro da seleção francesa se provou à margem do gramado tão efetivo quanto quando jogava lá dentro, o que lhe valeu 9 títulos. 

Convenhamos, não deve ser fácil se fazer respeitar por um agregado de caciques de peito inflado como Cristiano Ronaldo e Sérgio Ramos. Obstinado para além do imaginável, Zidane teve olho clínico para reinventar jogadores – Cassimiro é um bom exemplo – e se impôs a um nível tal que amealhou, entre outros títulos, três taças da Champions League, feito que lhe garante lugar cativo na galeria dos maiores de todos os tempos. 

E o que não dizer de Pedro Parente? Ora, o que ele pegou pela frente foi um autêntico rabo de foguete em trajetória descendente. Vilipendiada, exaurida e desmoralizada, a maior estatal brasileira estava exangue ao cabo de pelo menos 15 anos de desmandos criminosos, especialmente agravados pelo conluio macabro de três partidos políticos que a esfacelaram e reduziram-na a um valhacouto de favorecimentos. 

Hipotecando sua imensa credibilidade pessoal, ademais de comprovada competência técnica, o polivalente executivo chegou lá sem fazer alardes e, espelhando-se no modelo que vinha pautando a equipe econômica, desmontou caixas-pretas uma atrás da outra, e encarou com altivez as dezenas de pendências judiciais estratosféricas que tinham derrubado o valor de mercado da empresa e, cruelmente, a autoestima do corpo técnico. 

Nesse contexto, imagino como deva ter se sentido quando uma súcia de políticos profissionais, querendo ecoar o clamor histriônico das ruas, veio a público exigir a cabeça de Parente como se este merecesse outra coisa que não o agradecimento penhorado da nação. Por estrito dever profissional, Parente fez o que se esperava: disse que ficava e esperou o momento de normalização do quadro para então sair da empresa de cabeça erguida. 

Não sei o que ele fazia ontem à hora que Zidane anunciou sua partida, provavelmente para treinar a seleção do Qatar. Mas que isso pesou no "timing" de nosso craque, não tenho dúvida. Antes que a chamada "turma do amendoim" do Real Madrid começasse a se queixar de um desempenho menos exuberante, Zidane saiu por cima. Quanto a Parente, a partir da próxima semana estará vendendo frango para o mundo.

Sair na hora certa não é uma questão de administrar a fama e de deixar saudades. É, antes de tudo, entender que "ao Rei tudo, menos a honra". E que cumpridos os ciclos, se impõe abrir espaços para que os bons exemplos frutifiquem, sendo a renúncia ao carreirismo um deles. Afinal, quem tem o que entregar, não tem porque se aferrar aos cargos como crustáceos aos rochedos. Que venham as próximas oportunidades. 


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