Dias de silêncio

Pode ser que vizinhos tenham se conhecido melhor nesses dias em que o desalento ensejou a solidariedade entre muitos

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Rua vazia em São Paulo

A vida em São Paulo é a mais diversa do país. Tem gente, por exemplo, que mora na Serra da Cantareira, a dois passos do Horto Florestal. Lá o ar é puro e o silêncio só é cortado por um ou outro jato que manobra sobre as asas a caminho do aeroporto de Guarulhos. Tempos houve em que Elis Regina morou lá à procura de uma certa casa no campo, mas que não a deixasse longe dos compromissos. O contrapé do bucolismo cabe aos apartamentos que ficam debruçados sobre o Minhocão, na Zona Oeste. Quem neles vive, acompanha estático milhares de carros que desfilam pela janela e a poluição castiga os pulmões dos asmáticos. Quem não é doente, fica. Na Zona Leste, alguns bairros associam densidade populacional a algum bucolismo. A Mooca é um deles. Quem vive lá tem o sotaque metalizado dos italianos, e engole os "esses" do plural sem constrangimento. Ilhado por trilhos, o casario remete a uma existência interiorana, à margem do ritmo do mundo. 

Quanto a mim, vivo num mundo intermediário. Os chamados Jardins sinalizam com uma vida agradável. As ruas são bem servidas de comércio, goza-se de boa segurança e o morador escolhe um restaurante entre dez, a apenas cinco minutos de caminhada de casa. Apesar disso, o barulho é uma constante. Mesmo nas horas mortas da madrugada, ouve-se uma espécie de ronco que trai a pulsação de uma cidade que, a exemplo de sua congênere americana, nunca dorme. E, no entanto, o silêncio vem imperando na metrópole de uns dias passados para cá. Se as consequências da tal greve dos caminhoneiros – que deixou há muito de sê-lo, a bem da verdade – castiga a economia e coloca o país de joelhos, a vida, na perspectiva morigerada de um vivente independente, é paradoxalmente bela nessas circunstâncias. Pois sequer nos mais pacatos dias de janeiro, ou mesmo entre Natal e Ano Novo, vi a cidade funcionar à base de tanto silêncio, à margem das trepidações de praxe.

Como será que a História julgará esses dias em que paira no ar mais do que esse silêncio que me embala? Com bastante rigor, imagino. Vivemos, a nosso modo, uma crise de civilização e de exaustão de valores. Por outro lado, é aberrante a intenção manipulativa das ligas patronais que querem surfar a onda, socializar prejuízos e aferir bons dividendos na ponta da faca. Em meio ao fogo cruzado, está o cidadão comum que se perde na guerra de slogans e palavras de ordem. Quanto a mim, usufruo do benefício marginal do silêncio e da diminuição da poluição. E, na tentativa de ser otimista, penso nos benefícios indiretos que tamanha catástrofe nos trará. É possível que muita gente passe a se organizar de uma forma menos dependente de combustível. Pode ser que vizinhos tenham se conhecido melhor nesses dias em que o desalento comum a todos ensejou a solidariedade entre muitos. Seja como for, para mim terá ficado uma sensação de paz que, ironicamente, quero que termine.         


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