O pessoal da tequila tem algo a ensinar ao da cachaça

Parte do sucesso da projeção da bebida mexicana no mundo deve-se a forma de organização do setor

Por Marcos Graciani

graciani@amanha.com.br

Cachaça brasileira

A cachaça é a segunda bebida alcoólica mais consumida no Brasil hoje. Perde apenas para a cerveja. Reconhecida como tipicamente brasileira, se tornou aposta do setor de destilados.  A bebida vem vivendo momentos especiais, principalmente nos últimos cinco anos. No cenário interno, a possibilidade dos micro e pequenos produtores poderem optar pelo Simples Nacional representou um novo “fôlego” para o setor. A medida reduzirá a informalidade e alavancará a oferta de empregos formais gerados pelas micro e pequenas empresas. O Brasil possui mais de 1,5 mil produtores devidamente registrados, com 4 mil marcas. Estima-se que eles possuam capacidade instalada de produção de aproximadamente 1,2 bilhão de litros anuais da bebida, porém, anualmente são produzidos menos de 800 milhões de litros. São Paulo, Pernambuco, Ceará, Minas Gerais e Paraíba são os principais estados produtores. 

No âmbito internacional, destaca-se nesse período o reconhecimento pelos Estados Unidos (2013) de que a cachaça é um produto distinto do Brasil. A Colômbia (2012) e, recentemente, a assinatura pelos governos do Brasil e México do acordo para o reconhecimento mútuo da cachaça e da tequila como indicações geográficas e produtos distintivos desses dois países. “O acordo estabelece que toda bebida vendida no Brasil com o nome de tequila será de fabricação mexicana, assim como toda cachaça vendida no mercado mexicano deverá ter sido fabricada no Brasil”, explica Alexandre Bertin, presidente da Confraria Paulista da Cachaça. Mesmo com tantas conquistas, a cachaça ainda tem um longo caminho a percorrer e grandes desafios para o futuro, como o aumento das exportações, a consolidação do mercado internacional e a luta pelo reconhecimento em outros países como bebida genuína e exclusiva do Brasil. 

Segundo dados do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), as exportações da bebida atualmente estão aquém do potencial de mercado. Pelo menos 1% do volume produzido é enviado para o exterior. Comparando com as exportações da tequila, enquanto em 2017 o México exportou mais de 200 milhões de litros para mais de 190 países, quase 70% de volume produzido, o Brasil exportou pouco mais de 8 milhões de litros do destilado exclusivamente brasileiro para 60 países com mais de 50 empresas exportadoras, gerando receita de US$ 15,8 milhões, um crescimento de 13,4% em comparação a 2016. 

A tequila apresenta lições importantes para o setor cachaceiro. Parte do sucesso da projeção da bebida mexicana no mundo deve-se a forma de organização do setor. Essa forma de organização tem sido um exemplo perseguido pelos produtores de cachaça, por meio do Ibrac, que há alguns anos defende junto ao governo brasileiro que a cachaça tenha o mesmo modelo organizacional existente no México. As empresas brasileiras têm se esforçado, mas as ações de promoção da cachaça nos mercados internacionais podem ser consideradas tímidas, se comparadas com as de outras categorias concorrentes. Para se estabelecer um comparativo, enquanto a Tequila é protegida em mais de 46 países, incluindo a União Europeia, a bebida genuinamente brasileira está protegida em apenas três países (Estados Unidos, Colômbia e México).

“Para aqueles que querem investir na cachaça, o desafio será grande para atender aos nichos de consumo. Na produção é necessário planejamento e um olhar voltado para três pilares: alta qualidade do produto, processo de envelhecimento e embalagens diferenciadas. Sem esquecer que após essa etapa, outra grande barreira é a comercialização do produto, pois os canais de distribuição são restritos. Sem isso, a concorrência no mercado interno ou externo se torna esmagadora”, explica Bertin. Com o objetivo de atingir nichos de mercado, muitas empresas, especialmente as artesanais, desenvolvem embalagens diferenciadas, que têm contribuído para melhorar a imagem e expandir o mercado. As novas “roupagens” abandonaram a aparência pitoresca e agora apresentam projetos mais elaborados, em estilos artesanais ou sofisticados. 


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