Netta: a desforra dos gordos

Por boa que pudesse ser a voz, como franquear o palco a alguém tão estranha aos padrões de beleza vigentes?

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Netta Barzilai, vencedora do Eurovision 2018

Na quarta-feira (16) recebi com desânimo uma mensagem de uma amiga judia. Confusa, como todos nós – judeus ou não –, com a situação de Gaza, queria minha opinião pessoal sobre essa nova fase. Não que ela precise saber o que eu tenha a dizer a respeito. Afinal, conhece dezenas de analistas que poderiam dar uma posição comunitária, institucional e com quem poderia trocar impressões mais informais ao telefone. Acho, contudo, que recorrer a mim era uma forma de se apoiar numa visão mais isenta e menos engajada. Por alguns minutos, fiquei remoendo a mensagem e não achava o que dizer. Muito menos, algo de inteligente e original, à altura da confiança em mim depositada. 

Na verdade, poderia simplificar meus sentimentos com uma das fórmulas-síntese da maturidade: "Minha cara, fique sossegada. Sempre que houver um conflito em que meia-dúzia de celerados professarem o mau caratismo de colocar civis como escudo de alvos militares, fique certa de que o bem não pode estar do lado deles. Pergunto: acaso isso seria pensável em Israel? Nunca, jamais. Isso sabemos bem. Portanto, abrace esse raciocínio e não se sinta em conflito interno". E pronto. Mas a verdade é que não mandei esta mensagem. E, para espanto dela, disse apenas: "Estou sem saco, cansei. Se quer saber, minhas atenções estão mais voltadas para a consagração da cantora Netta Barzilai".

Você, leitor, pode dizer: mas onde já se viu a pessoa preterir o exame de uma pauta séria em favor do entretenimento mais supérfluo, quase frívolo? Não sei o quanto ela estava a par, mas mesmo em Israel teve muita gente que foi até a Praça Rabin aclamar a ganhadora do Eurovision, o concurso de música que, em Israel, arrebata audiências fervorosas há décadas. Para termos um parâmetro de comparação, compara-se ao que acontecia com o concurso de misses na Venezuela, antes de o país soçobrar no opróbrio do desmantelo e do populismo. Assim sendo, batendo a bela cipriota Elena Foureira (obrigado, Daniela Kresch), a gordinha Netta chegou de volta a Tel Aviv mais aclamada do que a Rainha Ester. 

Para ser sincero, pouco sei sobre "Toy", a música vencedora. Apenas que enquanto a canta, Netta sacode os braços, assim como uma galinha bate as asas. Nessa semana de glória, depois de conquistar o mundo a partir de Lisboa, a jovem obesa, até ontem anônima cantora de casamentos, admitiu que já teve apresentações canceladas depois que os noivos (ou seus pais) a viram. Por boa que pudesse ser a voz, como franquear o palco a alguém tão estranha aos padrões de beleza vigentes? E será que teria fôlego para segurar uma pista cheia de jovens em busca de diversão? Netta deve estar dando boas risadas dessas pequenas e grandes discriminações.  

Pego o gancho da israelense para contar um episódio interessante. Tendo chegado a Moscou um pouco desprevenido para os rigores do frio prematuro, tive dificuldade de achar um casaco bonito em meu número. Então pedi desculpas ao vendedor que se esmerara em trazer tantos modelos em vão. "A culpa é minha, estou fora de forma". Empático, o jovem russo fez um discurso que quase me emocionou. Falou sobre a diversidade da raça humana e deu a entender que todos deveriam ter seu lugar ao sol. Foi mais ou menos o que Netta disse ao agradecer o prêmio. E, irreverente, ainda provocou: "No ano que vem em Jerusalém".    

Seja como for, nas duas pontas do imenso continente eurasiano, só deu gordinhos. Às margens do Tejo, Netta Barzilai. Em Panmunjom, entre as Coreias, reinou o look ousado de Kim Jong-un. Pelo sim pelo não, vou deixar para começar minha dieta severa depois da Copa do Mundo. Por que não surfar essa onde por mais alguns meses? 


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