Sobre Juninho Pernambucano

Sem ele, as transmissões perdem a ancoragem da inteligência, da irreverência e da luta contra o óbvio

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

redacao@amanha.com.br

Juninho Pernambucano, ex-comentarista da Globo

À medida que nos aproximamos da Copa do Mundo, começo a me interessar por assuntos que meses antes passavam despercebidos. É o caso, evidentemente, da pauta desportiva. Por absoluta falta de tempo, ignoro os cadernos relativos a ela nos jornais, os debates televisados e a grande maioria das transmissões de partidas, salvo as da Champions e uma ou outra da Libertadores. Como, em sã consciência, aos 60 anos, com tanto a fazer, posso equacionar a agenda com o campeonato paulista, o pernambucano, o carioca, o gaúcho, a Copa do Brasil, as três séries do Brasileiro e as ligas da Alemanha, Inglaterra, França, Espanha, Itália, Turquia e Portugal? Como criar referências tangíveis entre duas centenas de jogadores protagonistas, dos quais duas dúzias são formadas por Tiagos e Lucas, e dezenas de outros de nomes que ressoam escandinavos, terminados em "son"? Não, não tenho mais cabeça para isso, se é que já tive um dia. Mas, como dizia, perto da Copa o interesse se torna mais tangível e aumento o volume da TV diante de tudo que diga respeito ao grande evento.      

É bem verdade que se trata de uma relação mediada, esta que se estabelece. Por quem? Pelos comentaristas, ora. Nesse contexto, com todo o respeito que a figura do cidadão me inspira, Walter Casagrande é uma referência inevitável. E não pelos melhores motivos. Tinha uma sogra que quando não podia evitar a transmissão da Globo, nos obrigava todos – filhos, genros, marido, netos e amigos – a assistir ao jogo no "mute", de rádio ligado. Isso porque a voz de Casagrande e suas colocações atabalhoadas, rebarbativas e redundantes, deixavam-na em estado de nervos tal que ninguém ousava se queixar do estratagema audiovisual. Na época, três Copas atrás, eu atribuía a intolerância à idade ou a uma irascibilidade só explicável por mera implicância pessoal. Mas hoje a entendo. Com toda a consideração que merecem os problemas enfrentados pelo ex-jogador, sua participação se solda, efetivamente, a uma terapia ocupacional a que todos somos convidados a cooperar. Porque conteúdo que é bom, zero. Serve expresso tão descafeinado quanto Tiago Leifert, quando militava no esporte.  

Nesse contexto, não fiquei propriamente surpreso ao saber da saída de Juninho Pernambucano do time de comentaristas da Globo, ocorrida na primeira semana do mês. Das poucas vezes que o vi e ouvi, identifiquei-me com algumas facetas intrigantes que, posso assegurar, nada têm a ver com o fato de sermos oriundos do mesmo estado. Mesmo porque, se há afinidade no sotaque, a história dele está intimamente ligada ao Sport, e isso por si só já causaria em mim certo distanciamento emocional, aquele mínimo que não existiria se não soubesse do fato. O que muito gostei nos comentários dele, ademais da originalidade das formulações, foi a contundência saudável, pouco afeita à prosódia trôpega de Casagrande, e muito longe dos modos edulcorados de Caio Ribeiro, o bom rapaz. Nesse terreno, estavam mais próximos do tom coloquial de outro nordestino, este quase carioca, no caso o paraibano Leovegildo Junior, mais conhecido pelo último sobrenome, homem também assertivo e igualmente experiente entre as quatro linhas. Mas volto ao fato: Juninho saiu da Globo às vésperas da Copa.    

Afinal, o que aconteceu? Não sei. Mas imagino que o fator desencadeador, a gota d´água, teria sido um comentário desairoso e algo azedo que fez com respeito a jornalistas ditos setoristas, cuja imparcialidade ficava hipotecada a compadrios. De resto, teria também dado uma versão bem pessoal sobre o fato de os jogadores do Flamengo preferirem tomar um ônibus sem identificação, temendo represálias da torcida. Ora, o padrão Globo não costuma ser benevolente com mordiscadas de sanduíche na tela, atos falhos infelizes -– mesmo que fora do ar – e, ao que tudo indica, abespinha-se quando um ex-jogador se desloca um mísero milímetro do script do bom mocismo que lhe compete respeitar. Na Globo, pelo jeito, não se mexe em time que ganha, mesmo que isso passe pela infantilização da audiência, exceção que me parece se aplicar apenas à boa teledramaturgia. Em torno de Galvão Bueno e seus pobres bordões, escoltados pela bonomia de Arnaldo César Coelho, escoam-se vidas inteiras, talvez gerações que se acostumaram à companhia da dupla. Então veio Juninho e destoou.  

É por essa e por outras que quero deixar minha solidariedade a meu honrado conterrâneo. E, por um momento, vou esquecer o DNA rubro-negro que o une a nosso mais ferrenho rival no estado, e lhe dizer que sua frontalidade honra as tradições recifenses. Pois por mais obediência que mereçam os cânones das organizações, prefiro vê-lo altivo e hígido a ser transformado numa vaca de presépio que deixe para destilar o melhor de sua percepção entre colegas, privando o grande público de assertivas contundentes e menos óbvias. É uma pena que percamos esse meio-termo numa rede de grande alcance. No mais, gosto de Mauro Betting, não suportaria Neto – nem sei por onde anda a essa altura –, e que Deus me livre de Juca Kfouri, a justo título considerado um dos seres humanos mais chatos da criação, pouco importa o quão esteja certo ao criticar a cartolagem. Mas a antipatia lhe é inata, coitado, pouco se pode fazer. A demissão de Juninho pelas razões alegadas, contudo, honra as melhores tradições de Pernambuco e, por assim dizer, afundamos de pé.  

Por fim, leio nas redes sociais que muitos se regozijaram com a notícia em função do marcado sotaque nordestino, que lhes soava incompreensível. Menos mal, que soltem, pois, seus rojões. O fundamental é que não sejamos cúmplices de lobotomias, reducionismos, mau gosto, achincalhes e infantilizações. Para tanto, o Brasil já tem Fausto Silva. Sem Juninho, as transmissões de amplo alcance perdem a ancoragem da inteligência, da irreverência e da luta contra o óbvio. Mas isso não é propriamente inédito na história de Pernambuco. De resto, é assim que se consolida a busca de emissoras alternativas onde a singularidade não seja pecado mortal e não se frustre a expectativa dos anunciantes. 


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Patrick Souza

Não tinha visto até agora um comentário tão lúcido como esse a respeito da saída de Juninho da Globo.

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