Os 30 anos de Maya

Não posso me privar de fazer um exercício de divagação que tem como ponto de chegada o dia 14 de maio de 2048

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Bandeira de Israel

Nesta segunda-feira  logo cedo nasceu uma linda menininha chamada Maya. Apenas horas depois do fim das celebrações do Dia das Mães, eis que ela veio ao mundo numa data nada trivial. Isso porque este 14 de Maio também assinala o dia da Declaração de Independência de Israel, 70 anos depois de ocorrida. Ora, o leitor perguntará: se temos tantas efemérides mais suaves, tais como o aniversário de Mark Zuckerberg ou até mesmo o da linda atriz Cate Blanchett, por que iria eu associar a data ao advento de um fato político do maior calibre, infelizmente marcado pela eclosão de uma leva de conflitos no Oriente Médio? O que tem a netinha de cearenses e paulistanos a ver com os distúrbios que grassam nesse momento na Faixa de Gaza? Não será essa mais uma dessas associações estapafúrdias que gosto de fazer nesse espaço? Pois bem, repondo que sim e que não, e explico as razões na sequência.  

Digo sim, que é quase uma provocação, porque eu poderia me contentar em mandar um beijo para a avó – minha amiga tão próxima há mais de 40 anos –, e aos pais, a quem me sinto ligado por tanto afeto. Poderia, ademais, falar do lindo dia outonal que a recebeu, e da temperatura agradável que é própria de São Paulo nessa época do ano. Com isso, passaríamos ao largo de rolos de fumaça, de multidões enfurecidas e dos tiros disparados em todas as direções. E, ao mesmo tempo, digo não, que não é uma associação fortuita, porque um dos bisavôs paternos de Maya – que também conheci bem –, lá por 1948, portanto há 70 anos, viveu a data com raro fervor e guardou-a no coração até o fim da longa vida. Isso porque o jovem que foi Fiszel Czeresnia por muito pouco não apareceu nas fotos oficiais em que pontifica Ben Gurion, falando ao Moetzet HaAm, o Conselho do Povo, justo no dia do nascimento da primeira bisneta. 

Pois bem, nessas horas de arrebatamento e de discreta emoção, não posso me privar de fazer um exercício de divagação que, sem saber onde me levará, tem como ponto de chegada o dia 14 de maio de 2048, ocasião em que Maya estará se tornando uma balzaquiana, como se dizia antigamente. E Israel, a seu turno, será uma jovem nação centenária. Nesse dia, a avó materna estará bordejando os 90 anos – marca que vem sendo alcançada pela família com folga há gerações –, e o pai terá mais ou menos a idade que tenho hoje, o que equivalerá, daqui até lá, ao começo da meia-idade. Se me atenho a essas projeções, é porque, de alguma forma, Maya é uma das poucas criaturinhas de quem conheci pai, avó, bisavós e, vagamente, até os trisavós. Na verdade, por um acaso da vida, até o túmulo de seu tataravô eu localizei no cemitério judaico de Lodz, Polônia, e não me espantaria que ela chegue lá um dia para visitá-lo. 

Elucubrando agora sobre o papel que Israel terá em sua vida, afora a coincidência de aniversários, é o caso de admitir que há algum mistério em torno dessa aliança. Ouso dizer que vai depender do país que Israel se tornará nos próximos 30 anos. Filha de pais cosmopolitas e rodados, Maya – que terá vivido parte de sua primeira infância numa bela cidade da Europa Meridional –, terá todas as condições para eleger seus recantos de preferência. E certamente não se sentirá tão inexoravelmente ligada ao pequeno país como foram seus ancestrais. Para esses, conforme saberá um dia, houve socialistas, religiosos, liberais, sionistas e até aqueles para quem Israel só faria sentido se fosse para que lá se reproduzissem os ideais igualitaristas que varreram as estepes russas e o interior da Polônia no alvorecer do século 20. Dos ancestrais paternos, há até aqueles que sumiram no horror dos campos de extermínio.

De minha parte, quando essa menininha chegar aos 30 anos, não sei se terei chegado a meus 90. Seja como for, espero que ela se anime a estar no aniversário do centenário de Israel. Por lá, ela ainda verá pedras alusivas aos bisavós em plácidos jardins de kibutz e talvez queira entoar as músicas de Naomi Shemer que embalaram a juventude da linda avó. Em 2048, alguém talvez lembre que a data assinala os 30 anos da enorme celebração da vitória de Netta Barzilai, no Eurovision, o que levou euforia à Kikar Rabin, de pesada memória. Então, com sentimentos ambíguos, ela sorrirá e talvez tire de uma agenda eletrônica esse estranho artigo em que alguém de que ela só terá ouvido falar vagamente, fez elucubrações sobre o dia de seu nascimento. E tudo isso a levará a querer saber mais sobre o mish mash de seus ancestrais, descobrindo até uma ponte entre o Ceará e o Pará, além de uma bisavó que amava o ladino.  

Então talvez essa jovem paulistana, e ela só, decodificará para os curiosos um emaranhado de nomes que escoltam as quatro letrinhas que formam seu nome doce e sensual. Neta de cearenses, nordestinos como eu, aos nomes dos pais se somarão uns tantos outros quase impronunciáveis, cujos ecos reverberaram em lugares longínquos. Mas essa é outra história. Bem-vinda, Maya, tenha uma boa vida. Tudo vai dar certo, acredite nisso em qualquer idade.     



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