Dicionário do Nordeste

Se dependesse de minha vontade, haveria um exemplar dessa preciosidade em todas as bibliotecas públicas do Brasil

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro

Semana passada comemorou-se o Dia da Língua Portuguesa. Como estive em Portugal durante os dias que antecederam as celebrações, pude acompanhar o vigor da data e o quanto a lusofonia está em alta mundo afora. Já não somos primos bastardos do castelhano, e isso não é pouca coisa. Se até anos atrás, o efêmero prestígio do Brasil no cenário internacional catapultou o aprendizado de nosso idioma em países remotos, o derretimento de nossa imagem de marca não arrefeceu o poder de sedução do português, hoje falado por um quarto de bilhão de pessoas. 

A explicação reside talvez no efeito gangorra das reputações. Se Brasília virou uma espécie de chacota internacional de uns anos para cá, Lisboa tem assomado como uma das capitais mais prestigiosas e queridas do mundo. Tal como acontecia com Paris no passado, cada um se arvora de cultivar a sua Lisboa, o seu pedacinho, e de lá entreter seus caprichos e preferências, quando não uma segunda residência. A isso chamamos "soft power" e oxalá não percamos o embalo porque deles se beneficia nossa literatura, nosso turismo e, como não, os negócios.

Nesse contexto, embora não possamos almejar que o português venha a ser uma língua franca como foi o latim, ou como se tornou o inglês dos dias de hoje, há de se reconhecer que se trata de um idioma poroso, inquieto, melodioso e eivado de influências inerentes à longa viagem dos navegadores lusos. Pensando bem, não poderia ser muito diferente na medida em que tivemos feitorias na costa africana, na Índia, na China, no Japão e até em Timor fomos ressoar, como se quiséssemos marcar uma posição na ilhota onde o mundo acaba. 

Mas, para mim, as verdades mais intrigantes sobre um tema dessa transcendência e riqueza podem ter crescido à sombra de um jambeiro num colégio recifense nos anos 1970. Pois foi ali que conheci o jornalista e dicionarista Fred Navarro, autor do delicioso "Dicionário do Nordeste", fruto de uma pesquisa de décadas, a que consagrou o melhor de seus dias, de sua energia, vigor intelectual e disciplina. Conheci-o há quase 50 anos no Colégio de Aplicação da UFPE e passamos décadas sem nos ver. Mas à distância, sempre soube do projeto vitorioso de Fred que foi crescendo segundo uma lógica cumulativa. Até que recebi um dicionário em mãos e já não viajo sem ele. À cabeceira, ele me garante legitimidade de pertencimento e ampla visitação à mitologia adolescente.

Assim sendo, passa da hora de se lançar mundialmente o "Dicionário do Nordeste", com seus 10 mil verbetes, para que a lusofonia como um todo tenha acesso a esse enorme tesouro subjacente à nossa língua. Se dependesse de minha vontade, haveria um exemplar dessa preciosidade em todas as bibliotecas públicas do Brasil e do que os portugueses chamavam de além-mar. Estudantes, tradutores, escritores, pesquisadores, historiadores e filólogos de todas as vertentes e idiomas, haveriam de se regozijar com um exemplar deste em mãos e, para sempre, como aconteceu comigo, na cabeceira. 

O autor, Fred Navarro, estuda propostas e, assim como a língua portuguesa, está aberto ao mundo. Que as boas editoras lisboetas se habilitem, pois o sucesso é garantido e é indizível o grande serviço que estariam prestando à extensão de nossa identidade cultural. 


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