Elos perdidos

Saber que não tinham sido esquecidos pelos familiares brasileiros era uma dádiva impagável

Por Fernando Dourado Filho, do Porto (Portugal)

Fernando Dourado Filho encontra familiares distantes em Portugal

Ontem fui visitar velhos parentes do tronco familiar lusitano. Depois de alguns anos de pesquisa, eis que uma diligente senhora – de uma prolixidade imensa, mas de igual simpatia – os localizou numa casinha do centro do Porto, onde vivem na paz que só os módicos recursos asseguram. Do casal de irmãos, ele viúvo e ela solteirona, encantou-me mais a figura enérgica do velho Fernando. Velho? Não sei se lhe cabe bem o adjetivo. Aos 96 anos, rijo e elegante, não se fez de rogado quando convidei-os a comer um rodovalho recém-pescado em Matosinhos. Lá chegando, atacou com apetite uma certa alheira escangalhada com espinafre e, na hora de pedir o vinho, disse que toma dois cálices de maduro tinto ao dia desde a juventude. 

Mas isso foi só o começo de muitas descobertas mútuas. Isso porque dissertou longamente sobre Salazar e disse que mais lhe parecia que naquela época as pessoas não morriam de doenças, salvo da doença da fome. Pois de tão numerosas que eram as famílias, faltava comida para todo mundo. Ele, contudo, resistira à tentação de emigrar. Na sequência, contou piadas que ruborizaram as bochechas da irmã e asseverou que viveu momentos de pura felicidade, apesar das penúrias da vida de pequenos horizontes. Do 25 de Abril para cá, afirmou que os corruptos saquearam o Estado e são penalizados com suaves multas em dinheiro. Para ele, o castigo supremo seria que o Estado lhes destinasse uma casinhola como aquela em que ele próprio vive. Isso sim, seria reeducação.  

No brinde de despedida, quando lhe perguntei se gostara do peixe e do vinho que ele próprio escolhera, foi a hora da emoção. Falando em seu nome e em nome da discreta irmã ali presente, disse que mais do que aquele momento agradável, sentia-se um felizardo de que o destino lhe propiciasse viver a magia daquele instante. Saber que não tinham sido esquecidos pelos familiares brasileiros e que aquele tronco que fora aportar em terras distantes os tinha em suas orações e pensamentos, era uma dádiva impagável. Enxugando as lágrimas, endereçou uma mensagem aos parentes mais velhos que não puderam ir ao encontro deles e todos formulamos votos para nos ver mais vezes. Otimista, não se deixou abater pelo peso da idade. "Continuo rijo, pá. E ainda haveremos de nos ver antes que vá para Campanhã", declarou, aludindo ao cemitério.  

Foi um Primeiro de Maio inesquecível. Na saída, o sol brilhava em Matosinhos e o mar era uma imensa placa metalizada. Ao longe, sumia o carro que os levaria de volta para casa. Se foi bom para eles, melhor foi para mim.    


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