Negócios no ritmo do rap

Na periferia paulistana, consumo é inclusão e autoestima

Por André D´Angelo

Negócios no ritmo do rap

Empresário é tudo igual, só muda o endereço – e o porte, claro. É o que se conclui de uma matéria do Valor Econômico com Ferréz (foto), rapper, escritor e agitador cultural da periferia paulistana. Reginaldo Ferreira da Silva, seu nome de batismo, caracterizou-se por colocar nas suas obras o cenário da comunidade onde vivia, o Capão Redondo, a ponto de ter se tornado uma espécie de porta-voz informal dos bairros pobres da capital paulista. À medida que ganhou reconhecimento, Ferréz não só não renegou suas raizes, continuando a viver na comunidade, como fez questão de alçá-la a uma posição tão ou mais importante que aquela a qual reservara na própria arte: o consumo.

Desde a década passada Ferréz é proprietário da 1Dasul, marca que criou para promover o lifestyle hip hop da periferia sob a forma de camisetas, bonés, bermudões e acessórios. E é aí, na condição de microempresário, que o discurso do rapper parece sair da boca de um integrante da FIESP: “É um absurdo o que se paga de imposto. Um massacre. Trabalho para pagar imposto para o governo”.

Sem ter feito qualquer curso gerencial, Ferréz foi aprendendo na prática sobre os meandros do marketing. Como sobre a importância do preço como indicador de qualidade: “Se (a mercadoria que vendo) for barata, ninguém compra. Chamam de ‘bacião’”. Também entendeu desde cedo que as preferências do consumidor são soberanas; por isso, as camisas polo vendidas pela 1Dasul são de corte tradicional. Modernizá-las significa deixar de vender.

O rapper ainda teve que lidar com o ativismo consumidor, quando produtos de sua marca que não existiam acabavam produzidos de forma caseira por fãs. Não era pirataria; “as pessoas gostavam da marca e queriam reproduzir em tudo o que usavam”, diz a matéria. Foi assim que teve o insight de criar adesivos, chaveiros e outros acessórios.

Mas as maiores lições quem recebe somos nós, que nos interessamos pelos assuntos ligados ao marketing e ao consumo. O case da 1Dasul mostra a importância do consumo como fator de inclusão social e autoestima. A loja da marca é ponto turístico no Capão Redondo. “Essa idolatria pela marca vem do sentimento de pertencimento”, reconhece Ferréz. “É a carência do cara que não se sente aceito porque não tem a roupa nem o tênis”.

Verdade verdadeira. Para a nossa sociedade, apetrechos de marca podem ser tão importantes quanto escola e posto de saúde – e tudo o mais que o Estado que massacra Ferréz e outros tantos brasileiros com seus impostos é incapaz de prover.


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