A dependência do GPS

Que mundo nos espera em 50 anos, quando o sexto sentido tiver dado lugar à inteligência artificial por completo?

Por Fernando Dourado Filho, de Lamego (Portugal)

Fernando Dourado Filho fala sobre a dependência do GPS

Tenho imensa dificuldade em entender como uma pessoa de altíssimo calibre intelectual se rende às diatribes do GPS e sua nefanda voz de sintetizador. Ontem, íamos para Guarda, na Serra da Estrela, mas um capricho da geringonça nos levou a tomar o trecho de Gouveia, o que terminou por atrasar a viagem. Se foi divertido viver as quatro estações num único dia, a parafernália de navegação poderia ter nos remetido a uma encruzilhada mais sinistra. 

Hoje saímos de Guimarães para Peso da Régua. Apesar da imensa placa da autoestrada que apontava o destino – que já fizéramos pela manhã, o que significava percorrer um túnel de 7 quilômetros e lindas pontes –, o condutor se curvou a um capricho do GPS e, não querendo contrariar a afetada lusitana que nos mandava ordens, entrou num labirinto tremendo, cheio de curvas, que valeu mareio geral. Foi bonito? Até que sim, mas podia ter sido fatal a quem tem nervos fracos. 

Ora, de tão bem sinalizadas que estão as estradas, já não precisamos dos mapas deliciosos que nos serviam até os anos 1990. Mas daí a perdermos o senso de direção pela posição solar, é temerário. Lembro do piloto da Varig que, embora voando sul-norte, que colocava o sol poente à esquerda em qualquer lugar do mundo, perdeu-se sobre a selva a ponto de ficar sem combustível e pousar sobre as árvores. 

Hoje a dependência tecnológica leva as pessoas a viver um drama escandinavo: quando algo dá errado, entram em pânico absoluto e só conseguem pensar no pior. Intuição que é bom, zero, pois deixaram-na em casa. Não gosto da pergunta-clichê, mas ela é inevitável: onde vamos parar nessa pisada? Que mundo nos espera em 50 anos, quando o sexto sentido tiver dado lugar à inteligência artificial por completo?   


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