Lisboa, a rebelde

É um prazer sentir que um abril em Portugal é sempre sinal de renovação, de fé na vida e de genuína alegria

Por Fernando Dourado Filho, de Lisboa (Portugal)

Vista de Lisboa, Portugal

O voo da TAP do Recife para Lisboa acontece diariamente há mais de meio-século e já foi fonte de muitas alegrias. Pois antes mesmo de embarcar num 707 pela primeira vez a caminho da Europa em 1973, eu já me dava por agraciado por ver em primeira mão os artistas lusitanos que faziam escala em nossa terra, e tiravam uns dias para se apresentar no Canal 2 ou em restaurantes como a velha "Adega da Mouraria". Raul Solnado, Francisco José e Amália Rodrigues foram só alguns deles. Não obstante não me agradem os voos de 7 ou 8 horas de duração, pois prefiro os de mais de 11 horas para poder ler e dormir bem, não deixa de ser uma dádiva para recifenses e lisboetas que as duas grandes cidades estejam separadas bem ali onde o Atlântico é mais estreito. Mas não era sobre isso queria falar hoje, mal botei os pés no Velho Mundo.

O que tenho a dizer é que se ensaia por aqui um movimento de resistência ao turismo desenfreado que, pensando bem, faz todo o sentido. Longe de tomar a feição iracunda dos resistentes catalães que sabem ser grosseiros e têm um complexo enraizado de soberania – qualquer manifestação cultural em território deles que não seja comprovadamente de inspiração local lhes parece atentatória à autonomia –, os lisboetas têm razão para bradar contra o turismo predatório que lhes onera o custo de vida e, sobretudo, que ameaça descaracterizar a bela capital. Assim, para além do magnetismo dos Golden Visas que dão cidadania a quem investir no País, as ruas começam a ser invadidas por tuc-tucs e a adequação aos caprichos estéticos e culinários brasileiros, dentre outros, macula as cores locais.

É claro que muita gente pode argumentar que o turismo eleva o nível de vida da população local. Foi Chirac quem veio a público na França explicar a seus governados que posturas xenofóbicas eram, além de histéricas, burras. Pois se não fossem as hordas de japoneses endinheirados e suas máquinas fotográficas sôfregas, o que seria da ocupação hoteleira, dos bons vinhos, do foie gras, da alta costura e da indústria de perfume? Nessa pisada, a França quer bater os 100 milhões de visitantes já em 2020. Por outro lado, Portugal ainda experimenta o primeiro ciclo de assédio e devassidão. É normal, pois que velhos moradores da Mouraria se inquietem ao ver-se desalojados de endereços que ocupavam há décadas, para dar lugar a instalações adaptadas ao fervor devocional dos turistas que lá chegam para viver dias de exceção, barulho e esbórnia.     

Isso dito, é um prazer sentir que um abril em Portugal é sempre sinal de renovação, de fé na vida e de genuína alegria. Li que o português é falado por 260 milhões de pessoas, o que nos dá um honroso sexto lugar entre os idiomas de maior repercussão. Estar no centro irradiador desse tesouro inspira e reacende nosso amor aos grandes escritores da lusofonia. Bem a propósito, trouxe o maravilhoso Dicionário do Nordeste, do amigo Fred Navarro. Com mais de 10 mil verbetes, é meu dever nessa temporada achar um editor que queira levar essa obra originalíssima a todos os recantos do mundo ligados à língua: Timor, Goa, Macau, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Cabo Verde e Angola. Adubemos pois o que nos une. E resistamos a concessões ao fácil como bolinho de bacalhau com queijo da Serra.          

Lisboa tem doçura de mãe. Mas se irritada, pode se rebelar, pá! 


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