Seis meses de suplício

Pelo jeito, vou emplacar maio. E estou feliz por ser agora um pé frio

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho narra seus seis meses de suplício

Quando você encontrar alguém muito expansivo, uma dessas pessoas que falam sem peias sobre as dimensões aparentemente mais íntimas da vida, reconsidere-a sob outro olhar. Isso porque pode ser que ela esteja escondendo algo de mais fundamental, alguma coisa que ela não tem sequer a coragem de admitir para si própria. Não sei se é verdade, mas parece que Freud dizia que as palavras podiam funcionar como uma cortina de fumaça, como um biombo para maquiar a verdade dos fatos. Pegue meu caso, por exemplo. Todo mundo que me lê sabe que tenho horror a médico e que só procuro um deles quando sinto que já estou desenganado. Aqui mesmo neste espaço, já contei algumas histórias a esse respeito, sempre sob a ótica de brigas com a balança ou sobre como lido com os vaticínios negativos que ouço diariamente. "Cuidado, precisa emagrecer, não fuja da verdade". Mas, ultimamente, o buraco era mais embaixo. 

Para ser bem sincero, era bem embaixo mesmo, no extremo sul do corpo. A seguir, conto como tudo começou. Desde novembro que eu vinha sentindo um formigamento estranho nos dedos dos pés. Mais parecia uma dormência constante, que não me deixava sequer quando me locomovia. Fui à internet e fiz algumas consultas. O diagnóstico não era bom. Falava-se lá de uma tal neuropatia periférica, uma doença gravíssima, consequência dos mais avançados níveis de diabetes. Ora, muito embora eu não seja diabético (ainda, dizem os diabéticos, ainda, como se aguardassem com ansiedade meu inadiável ingresso no clube), isso não queria dizer nada. De repente, contraíra a doença em versão agressiva desde o último checkup e, a qualquer momento, poderia também perder o movimento das mãos e, a depender do estágio, talvez ficasse cego. Passei no hospital, mas a atendente disse que aquilo não tipificava urgência. Achei ótimo e fui embora. 

Fiz um bom seguro-saúde e embarquei para a Lapônia no Natal. Na decolagem, disse a mim mesmo que, se voltasse vivo, iria no dia seguinte à chegada ao hospital. Duas semanas depois, porém, desembarquei em São Paulo imbuído de um senso de missão muito mais transcendente. Ora, os pés continuavam queimando, mas eu tinha uma tarefa hercúlea pela frente. Aguentaria um pouco mais. E sempre que podia, tirava o sapato para aliviar aquela agonia. Quando começou a ficar insuportável, em fevereiro, precisei voltar à Europa por mais uns dias. Quem sabe não seria pela última vez? Foi assim que desembarquei por lá com ares de um paciente terminal que vai ver Paris como despedida. O frio aplacou alguns dos desconfortos e o certo é que, de novo, voltei vivo. Mal cheguei, fui tomado de roldão pelo trabalho e me fixei o prazo de fim de março para ouvir o diagnóstico fatal. Que a essa altura, devia ser bem pior do que eu imaginava. 

Isso porque, aparentemente, eu não tinha (ainda) nenhum dos sintomas que acometem os diabéticos: sede, vontade de urinar constante, vista embaçada e perda de peso. O que seria? Com a morte de Hawking, pensei seriamente que aquelas manifestações pudessem ser indício da terrível doença que o acometeu, chamada de esclerose lateral amiotrófica. Também fui ler sobre doenças autoimunes e vi no Facebook um alerta sobre fibromialgia, o que também seria possível. Em meados de março, tomei precauções de quem está a um passo de perder o domínio de si . Dispensei clientes, ignorei viagens, comemorei 60 anos com discrição e lá fui eu encarar as coisas de frente. Em São Paulo, onde moro, penso assim: notícia ruim, melhor que seja no Recife, no meu sotaque. Mas uma vez que estou no Recife, penso: é melhor ir ao médico em São Paulo, tem mais estrutura e é uma forma de poupar mamãe de preocupações. A gente morre como nasce, ou seja, só.  

Semana passada, cheguei ao limite. Munido de coragem, fui ao médico e disse o que vinha sentindo. Já vivera drama parecido há 10 anos, quando achava que estava com câncer de pulmão, e soube por um médico escandinavo que, na verdade, tinha asma brônquica, o que não é agradável, embora seja bem melhor do que ter um tumor nos alvéolos. O médico de São Paulo, um jovem que eu jamais vira, passou a descompostura de praxe, mas não me pareceu tão preocupado quanto eu estava. Para não ficar por baixo, falei de ácido úrico e de uma gota renitente, mas que estava debelada já que eu me automedicara com Colchicina. Foi então que ele disse que eu deveria procurar meu médico do Recife, mas que tudo indicava que aquilo poderia ser uma deficiência de vitamina B 12. Saí do consultório com aquilo martelando o juízo. Eu vinha tomando a tal vitamina, mas numa dosagem baixa. Então fui ao site de Dr. Drauzio e vi que a dosagem indicada era quatro vezes maior.     

Antes mesmo de ver os exames, fui comprar mais Vitamina B 12 e tomei quatro comprimidos de 500 microgramas, que parecia ser a posologia adequada. Um dia depois, recobrei a sensibilidade no pé. Mais uma noite e voltei a sentir o contato de cada dedo com o chão frio, o que pareceu um renascimento. Antes de mais uma noite de sono, tomei a terceira dosagem de 2 mil microgramas. Então, já pude trabalhar sem tirar os sapatos, da mesma forma que não mais me vi forçado a fazer isso no cinema, no avião, no carro ou no restaurante. Hoje já não senti mais nada de errado. Para coroar a cura aparente e óbvia, sequer tive a curiosidade de ver os exames que estão na tela do telefone. Eu vou fazer assim: vou continuar com o tratamento – parece que é para a vida toda – e, quando voltar de viagem, levo os exames para o médico do Recife. Sabe como é, lá fala-se no meu sotaque. Pelo jeito, vou emplacar maio. E estou feliz por ser agora um pé frio.  

Mas há pouco chegou ao escritório um desmancha-prazeres dizendo que isso pode ser sintoma de anemia profunda ou de que eu tive chikungunya-zika. Seja como for, vou voltar ao site do Dr. Drauzio. Menos mal que anemia é falta de ferro, não é isso? Que tal fígado acebolado para amanhã?     


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