Em favor de Mark Zuckerberg

Não sou simpático à ideia de demonizarem-se certas indústrias, sequer as religiosas

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Mark Zuckerberg, CEO do Facebook

"Cuidado com o que vai escrever. Hoje é sexta-feira, 13", disse um amigo ao final do café da manhã de um hotel na alameda Santos, ao nos despedirmos. Segundo ele, eu deveria escolher meus temas com cautela porque o mundo está cada dia mais minado e não tardará até que certas milícias me coloquem na alça de mira. "Por que você não escolhe tópicos menos polêmicos? A privatização da Eletrobras, por exemplo, que está na ordem do dia". Ora, argumentei, sobre isso dezenas de pessoas têm coisas muito mais interessantes a dizer do que eu jamais poderia sonhar em ter. A única crônica relevante que me ocorreu a esse respeito, fora ter a luz de casa cortada por falta de pagamento. Insisti no argumento, contudo, de que nada me impedia de tratar temas sisudos. Desde que, bem entendido, eles tivessem alguma conexão com minha experiência. Sou consultor de empresas e, nas horas vagas, candidato a escritor. Nada me obriga, portanto, a ter a pureza do jornalista ou sua isenção. Daí preferir escrever sobre o que efetivamente vivo. Estava dada a senha para que buscasse uma boa briga para o fechamento da semana.  E foi pensando nela que me ocorreu que ainda nada escrevera sobre a polêmica em torno do Facebook, seu dono e associados.   

Ora, o imbróglio é bem conhecido. E boa parte dele deságua numa empresa chamada Cambridge Analytica que teria consolidado dados de pesquisas, coletados junto à boa fé de filiados ao Facebook. Trabalhando então a força descomunal e transcendente dos algoritmos, a manipulação de vontades e tendências teria dado ensejo a dois imensos desastres da História, espécie de versão pós-moderna de Frankensteins. A primeira delas, induzira inocentes úteis da Grã-Bretanha a voltar pela saída do Reino Unido da União Europeia. Bombardeados por anúncios enviesados, os pacatos cidadãos de Lancaster trituraram o sonho das gerações futuras, que não se sentiram motivadas a votar no plebiscito fatal. O resultado assinalou um dos maiores retrocessos da História de todos os tempos. Não deixa de ser impressionante a tal força manipuladora. Especialmente porque jamais imaginei que os tais velhinhos passavam o dia diante do computador, fazendo amizades no Facebook. O segundo desastre foi a eleição de Donald Trump, um evento grotesco, a começar pelo fato de que o próprio candidato não apostava um hambúrguer na própria vitória. Partindo daí, fazia-se um caminho de volta e o conluio remetia as maquinações a Zuckerberg, um menino levado que viciara o mundo num joguinho interativo.           

Nesse contexto, e aqui vem minha discreta concessão ao jornalismo, conversei com o representante da Cambridge Analytica no Brasil. Em bate-papo que nada teve de sinistro, ele deu uma aula sobre “micro targets” e explicou como funcionam os tais filtros de triagem. Tudo tão óbvio quanto lógico. Quer aumentar a base de leitores de um jornal, por exemplo? É só peneirar por “likes” as pessoas que gostam dos temas recorrentes, a partir dos "trending topics" que constam da nuvem da publicação. Para tanto, paga-se uma taxa ao Facebook e espera-se o milagre da multiplicação. Quer vender livro de arte em Brasília? Basta triar pelo CEP ou pela base de dados da livraria Cultura, quem comprou a última biografia de Leonardo da Vinci pela Internet, ali deixando rastros. Em suma, não deixa de ser uma mala direta dos velhos tempos. O que se pode fazer, por outro lado, se existe uma penca de idiotas que se deixa manipular por propaganda política? Aliás, o que é mais invasivo? Mensagem digital ou panfleto pelo correio? O que se propõe doravante? Uma espécie de castração digital? Se for, sou contra porque abomino cerceamentos. Como escrevi recentemente, acho que não foi para isso que evoluímos. Ademais de não funcionar, teríamos que priorizar de cara o conteúdo pernicioso da televisão aberta do Brasil e do mundo. 

Isso dito, é lícito pensar que Zuckerberg não precise de meus ofícios de defesa. Quando ele veio ao mundo, em 1984, eu já me esbaldava em sua cidade natal e jamais poderia imaginar que em algum lugar da vizinhança, nascia um certo Mark, fadado a congregar em torno de um brinquedo, o equivalente a duas vezes a população da China. Seja como for, não sou simpático à ideia de demonizarem-se certas indústrias, sequer as religiosas, mesmo as que acenam com curas milagrosas, levando pessoas a ignorarem o tratamento médico adequado. Não custa lembrar o leitor de um truísmo tão antigo quanto eu mesmo: se um produto lhe é dado de graça, está óbvio que o produto a vender é você. O que, diga-se de passagem, nem sempre é ruim. Quantas vezes não somos alertados sobre livros procurados há muito tempo? Ou sobre festivais gastronômicos em restaurantes interessantes, que nunca estiveram em nosso radar? Isso pactado, cabe a cada um organizar a vida com equilíbrio. Tenho um amigo meio compulsivo que começou a comprar passagens aéreas a rodo. A ponto de voltar de Curação uma manhã e ter que embarcar para a República Dominicana à noite. Depois de uma desintoxicação, achou o melhor meio de surfar essa onda. Em outras palavras, deixem o pequeno Mark em paz. 

Por fim, como sabemos bem, "o que dá pra rir, dá pra chorar. Questão só de peso e medida", como já disse nosso poeta.  

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