O arqueólogo e o tesouro

O que o futuro nos reserva? O do empreendedorismo criativo ou o do cartorialismo finório?

Por Fernando Dourado Filho, de Caruaru (PE)

O que o futuro nos reserva? O do empreendedorismo criativo ou o do cartorialismo finório?, pergunta Fernando Dourado Filho

Quando voltei de minha primeira temporada em Israel, lá se vão mais de 40 anos, conheci um rapaz cujo sonho era cursar arqueologia. Como sou arrebatado pelas paixões alheias tanto quanto sou pelas minhas próprias, estimulei-o com meu testemunho. Ora, como eu acabara de passar quatro meses no kibutz Ayelet HaShahar, ao lado do sítio arqueológico de Hazor, contei-lhe sobre o canteiro de atividade febril. Pelas manhãs, eu ia até lá e via os jovens de chapéu a revolver os escombros. Moças de lenço na cabeça e shorts xadrez passavam uma escovinha em peças minúsculas, não raro um sestércio romano, um fragmento de vaso ou uma estatueta de braços mutilados. Extasiado com minha descrição, ele sonhava com a profissão heroica e com uma vida na Terra Santa, Capadócia, Mesopotâmia ou Xian. 

Mais adiante, encontrei-o numa assembleia estudantil e eis que ele estava cursando uma nova ciência ligada à programação de computadores, e que então se anunciava vanguardista. A que se devera a mudança de carreira para opção que me parecia tão árida? Em que ponto do caminho se esvaíra o sonho? Ora, o pai dissera que ele podia estudar o que quisesse, desde que fosse com dinheiro próprio. Arqueologia era diletantismo, ciência de milionário excêntrico, própria de quem já tinha o sustento garantido por outras fontes de renda. E assim ele deixou na prateleira a utopia juvenil e é possível que jamais tenha voltado a abraçá-la. Pois bem, por uma dessas ironias da vida, posso asseverar que estava bem enganado o tal senhor. Pois hoje é sabido que não se precisa achar o túmulo de Tutancâmon para se chegar à fortuna e à notoriedade com a arqueologia, tornada de repente um maná.  

Digo-o porque um conhecido resolveu construir um empreendimento num simpático estado do Nordeste e foi avisado de que poderia ter a obra embargada se não tivesse um arqueólogo de plantão. Embora a paisagem não prenunciasse o menor vestígio de interesse histórico, os honorários cobrados pela empresa que detém o passe do tal Heródoto repaginado, foi de nada menos do que meio milhão de reais ao ano para, mês após mês, ele apor a assinatura em documento para este fim. A propósito, tenho amiga arqueóloga, formada em Jerusalém, professora da USP, versada em três línguas mortas e especialista em Bíblia, que não ganha metade disso. Como pode semelhante vigarice vingar? Meu velho amigo deveria ter persistido. Ao invés de pilotar computadores, estaria à frente de um canteiro na praia, ganhando bem para rubricar papéis.      

Que país difícil, não é mesmo? Abrir uma empresa aqui beira a insanidade, tantas são as dificuldades e o oportunismo dos órgãos constituídos. O que o futuro nos reserva? O do empreendedorismo criativo ou o do cartorialismo finório? 


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