Vida “on-line" e "off-line"

Não há notícia, por importante que seja, que não possa esperar

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Não há notícia, por importante que seja, que não possa esperar, alerta Fernando Dourado Filho

Até dez anos atrás, sempre que estava no Recife, não havia dia que não começasse com uma caminhada na praia. Para tanto, bastava atravessar a rua, escolher se ia à direita ou à esquerda, de acordo com o nível da maré, e percorrer a passos acelerados um trajeto de 80 minutos, a que se seguia um coco verde no quiosque, um banho frio, e eis que estava pronto para o que desse e viesse. Longe de configurar pauta de atleta, hoje percebo que ela era boa o bastante. Em menor diapasão, e num quadro menos exuberante do que o espelho solar do Atlântico, caminhava pelas ruas arborizadas do Jardim Europa, em São Paulo, e só tinha acesso às primeiras informações do dia quando chegava ao escritório, duas horas depois de ter despertado. Entre outros benefícios, pesava 20 quilos a menos e digamos que havia uma alegria mais genuína em viver a vida, fruto talvez dessa oxigenação das células que vinha com o sol matinal. 

Disciplina similar, e que eu via como muito prazerosa, acompanhava-me onde quer que estivesse no mundo. Na China, saía para acompanhar os grupos de ginástica que faziam elaboradas coreografias de tai chi. Em Barcelona, inverno como verão, descia as Ramblas até a praia e fazia quase duas horas de trajeto entre o centro da cidade, onde me hospedava, e o hotel Arts. Tomava então um lauto café da manhã e ia trabalhar. Com isso, o almoço podia ser comparativamente mais leve do que os de hoje em dia e à noite, por grande que pudesse ser a tentação da farra, o sono chegava logo, ao cabo de 20 minutos de leitura. Afinal, acordara cedo e queria fazer o mesmo no dia seguinte. Tratava-se de um ciclo virtuoso cujas digitais, mal sabia eu, estavam a poucos anos de ser esmaecidas por hábitos que foram se impondo pouco a pouco, dando lugar a prioridades ilusórias. 

Assim sendo, embora o imperativo de ler notícias frescas tenha chegado para ficar com o 11 de setembro, é forçoso admitir que ali ainda não atingíramos um ponto crítico. Foi só mais adiante que se impôs a necessidade de responder e-mails aos primeiros minutos do despertar. Assim como a de nos mantermos atualizados, em tempo real, com a crônica planetária. E aqui já nem falo dos comentários às mensagens que eclodem nas redes sociais que, em meu caso, eram totalmente desconhecidas até bem pouco tempo. Assim sendo, instaurou-se o auto-engano de achar que os programas matinais poderiam ser postergados para o fim da tarde. Ora, de cara é preciso admitir que esse arranjo não se cumpria a contento pois era atropelado pelos afazeres do dia. E, obviamente, os benefícios de higiene física, mental e, de certa forma, espiritual, não eram os mesmos. Foi assim que, paulatinamente, muitos caíram na armadilha do "on-line".

Foi sobre tudo isso que conversei na manhã desta quarta com meu amigo André Motta, que não via há alguns anos, aqui nas areias de Boa Viagem, neste ultimo dia de temporada recifense. O sedentarismo é mesmo uma praga e pode-se dizer que é o pai de muitos dos males contemporâneos. Foi isso o que ele me disse ao apontar uma cicatriz que lhe cruzava o osso externo. "A melhor coisa que fiz foi a desintoxicação do digital, cara. Quase pago com a vida essa mudança de hábitos. A válvula do relógio aqui, que é analógica, estava no limite da garantia. Saí das redes sociais e já percebi que as notícias relevantes nos chegam mais cedo ou mais tarde". Falando sobre o dia trepidante que será esta quarta-feira brasileira, ele desconversou. "Vou dar uma espiada na televisão, sim, não nego. Mas será para ver o jogo do Barcelona contra a Roma. Esta é a adrenalina que eu prezo hoje. A outra, eu deixo para você que se leva muito a sério", concluiu.

Seja como for, mesmo que você seja adicto da vida on-line, ouça o que disse meu amigo, um atleta ressurrecto. Não há notícia, por importante que seja, que não possa esperar. Em tempo: que não levemos a vida tão a sério. Foi a lição do dia, o que já é um bom começo.  


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