60 anos

A vida já ensinou que as coisas funcionam melhor quando são planejadas

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Fernando Dourado Filho comemora 60 anos

Se há uma coisa que funciona muito bem neste mundo virtual, é o sistema de alerta de aniversários do Facebook. Tal como aconteceu ano passado, quando fiz 59 anos, desde cedo as mensagens pulularam de várias partes do globo e, curiosamente, está em voga referir-se à data, pelo menos no Brasil, como "o seu dia", alusão esta que não era corriqueira em meus tempos de juventude. A bem da verdade, meus pais nunca consagraram o culto à data. O que não faz jus ao restante da família que até hoje parte em romaria à casa do homenageado, coitado, gerando embaraços para os que são ensimesmados e recolhidos por natureza. Como sou alvo móvel e ninguém nunca espera que eu esteja onde deveria estar, escapo às celebrações do rito com habilidade e, ano após ano, me restrinjo a um pequeno jantar na companhia de poucos. 

Nesse contexto, sabedores de minhas reticências íntimas à celebração dos 60 anos, muitos amigos têm dito – conselho que agradeço – que nada de fundamental terá mudado amanhã, dia 30 de março, quando (e se) despertar em plena Sexta-feira da Paixão, que coincidirá neste 2018 com a primeira noite da Páscoa Judaica, data que comemorei com alegria por anos. Admito, é óbvio, que não espero nada de excepcional, mas já me daria por bem satisfeito se o corpo não acusasse tantas dores, fruto provável da falta de exercício. Eis, portanto, uma boa primeira promessa para a década que se inicia: movimentar-me mais, ser menos sedentário e me obrigar a uma hora de caminhada ao dia. É uma meta bisonha, mas a vida já ensinou que as coisas funcionam melhor quando são planejadas assim, na base do devagar e sempre. 

Outra coisa que está a meu alcance mudar, segundo me segredam os amigos, é dedicar uma hora ao dia para escrever um romance de verdade. A maioria das pessoas gosta até bastante das crônicas que escrevo para o "Jornal do Commercio"; dos artigos publicados na AMANHÃ e dos contos periódicos que aparecem na revista "Será?". Os livros publicados recentemente – "Nos passos de Fiszel Czeresnia e outras estórias"; "Vinhetas de Paris no outono" e "Confidências de Dr. Pollock à Rainha da Inglaterra" – seguem seu bom curso, embora se ressintam de minha ausência em feiras e debates, decorrência de uma agenda que ainda não dá margem para fazer o que gosto pois, fundamentalmente, vivo de meu trabalho. E literatura é incompatível com contas em dia. Mas vou atacar o romance aos poucos, na mesma base anterior.

No mais, queria muito que algumas coisas ficassem como estão. Mas não é sensato tentar me persuadir de que os próximos anos, se tiver a ventura de vivê-los plenamente, não pedirão reinvenções de mim mesmo que, estas sim, constituirão o maior dos desafios para uma pessoa que, na essência, continua aos 60 anos, sendo o adolescente que sempre foi. Não faz muito tempo que, em viagem à Ásia, um chinês me dizia o quanto pareço me levar pouco a sério. Dito de outra forma, eu não me empenhava em aparentar ser um cavalheiro respeitável, como é de praxe naquela parte do mundo. É como se quisesse continuar a me singularizar pela irreverência e pelo desprezo por certos cânones. Aqui reside talvez o maior dos obstáculos, aquele para o qual eu esteja pobremente equipado: a invenção de um Fernando menos espirituoso e mais espiritualizado.

De resto, no momento que escrevo este agradecimento, estou a caminho de um almoço comemorativo com amigos. Se tivesse planejado as coisas com a pompa e circunstância que a data pediria, talvez tivesse ido a Garanhuns, a 240 quilômetros de onde estou, terra onde vim ao mundo. De qualquer maneira, com referenciais espalhados em todos os continentes, digamos que o Recife dará conta da missão, mesmo porque é uma cidade mágica. E quem passou a infância aqui nos anos 1960, não tem muito do que se queixar. Ou nada, se pensarmos bem. Especialmente se teve a ventura de desbravar outras águas logo cedo, em plena adolescência, o que tornou a vida uma aventura prazerosa e cheia de adrenalina. Aguardo, portanto, as luzes da noite para atacar as festividades mais definitivas. E buscar alguma forma de renascimento, próprio das datas que se avizinham.     

Por fim, sendo eu o sujeito chato que a vida foi me forçando a ser, salvo para com as pessoas de quem realmente gosto e aquelas com quem simpatizo de cara, tenho um bocado a agradecer a todos os que me aturaram nas diversas fases da existência. Fiel a meu figurino, contudo, é forçoso admitir que muito mais importante do que as pessoas que cultivei, e elas foram muitas, contam também as que descartei do convívio. Expeli-las de meu mundo e me desvencilhar do caráter tóxico de sua natureza, me fez bem similar ou maior ao proporcionado ao travar novas amizades. Sendo um homem por certo cosmopolita, malgrado a alma de cangaceiro, confesso que o melhor que fiz foi seguir o conselho dos mais experientes e deletar para todo o sempre essas pessoas dessa viagem. Isso pode soar cruel, mas é um recurso alternativo ao perdão.   

E é assim que vou vivendo. Obrigado pelos votos e até São Paulo.      


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