Pesadelo no Mineirão

O narcisismo futebolístico brasileiro levou merecida sova e há de ter tido um efeito pedagógico sobre milhões

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Brasil 1 x Alemanha 7, no Mineirão, em Belo Horizonte, pela Copa do Mundo 2014

Como antecipado na segunda-feira (leia o post anterior aqui), decolamos no horário. Veterano de 40 anos nessa rota aérea, que devo ter cumprido bem mais de mil vezes em ambos os sentidos, é como se a conhecesse de cor. Nesse contexto, o primeiro grande ponto de referência é a cidade de Belo Horizonte, que fica a uns 50 minutos de voo de Guarulhos, em velocidade de cruzeiro com proa Nordeste. Às 17 horas, portanto, era por ali que passávamos, mas a coincidência não deve ter ocorrido a muitos passageiros, mais entretidos em tomar cerveja e especular sobre a ausência de Neymar em campo. Pelas minhas contas, era possível que o comandante desse uma palhinha sobre o andamento do jogo ao final do primeiro tempo, quando estivéssemos na altura de Vitória da Conquista, Bahia.

Sem vizinhos ao lado, esparramei-me do jeito que gosto e depois de me entediar com a leitura do livro, passei a debulhar os vários jornais que trouxera, sempre com a atenção voltada para os copiosos cadernos de esportes que cobriam aquela Copa de 2014, a primeira realizada no Brasil desde a catástrofe de 1950. Certo mesmo é que, a certa altura, adormeci, pesando talvez nas delícias que me aguardavam no Recife onde, fatalmente, iria me juntar a meus primos. Para quem não a conhece, a capital pernambucana é uma das mais aprazíveis do Brasil. Com as mudanças climáticas em curso, vem desfrutando de ventos frescos no meio do ano. Como moro lá em andar alto, a brisa que vem do mar é um bálsamo para calorentos assumidos como é meu caso.  

O sono certamente não era profundo, pois, a certa altura, ouvi quando a aeromoça falou ao microfone num tom que me pareceu despropositado. "Senhoras e senhores, final do primeiro tempo do jogo Brasil x Alemanha em Belo Horizonte. Resultado: Alemanha cinco, Brasil zero". E mais não disse. Um frisson percorreu a cabine de uma ponta a outra. Nenhuma voz era nitidamente inteligível, mas certo é que reinava uma balbúrdia. Um conterrâneo meio enfezado virou para mim do outro lado do corredor e indagou: "Dá para acreditar numa coisa dessa?". Respondi com soberba: "Não dou um minuto para que ela corrija o que disse. Deve ter tido prorrogação até os 50 minutos e ela inferiu que os dígitos 5 e 0 simbolizavam um placar. Isso não é basquete. Sossegue". 

Nenhum desmentido aconteceu. Mas, melhor dizendo, aconteceu muita coisa. Alguns foram ao banheiro e tiraram a camisa da Seleção para vestir uma neutra. Um maluco ameaçou tocar fogo na dele, se tivesse um isqueiro ali. Outros, de índole mais piegas, repetiam mantras idiotas de televisão tais como "sou brasileiro e não desisto nunca" ou "tenho amor a essa camisa". Um ou outro dizia que ainda tinha muito jogo pela frente e que confiava em Felipão. Eu já não tinha mais concentração para ler o que levara a bordo e Salvador desfilava sob a asa direita quando a mesma voz que dera a notícia fatídica anunciou o começo do segundo tempo. Na altura de Aracaju, veio uma confirmação apavorante. Os alemães tinham feito o sexto gol. E sobre Maceió, o sétimo. Meu Deus! 

Quando desembarcamos no Recife, ainda no finger, abordei o despachante. Então era verdade? A título de consolo, ele disse que fizéramos um gol no último minuto, o que, para mim, só agravava nossa humilhação. Mas o que acontecera? Será que o taxista que me levaria para casa tinha uma versão mais consistente? Nada. O homem estava casmurro, triste e abatido. "Parecia que estavam hipnotizados, doutor. Se eu disser que tomamos 4 gols de 10 minutos, ninguém acredita. A gente achava que era replay. Mas quando via, era um gol novo".  Subi como uma flecha, a vizinhança em silêncio total, a cidade entorpecida. Na praia, na imensa faixa de areia, que via dali até mil metros adiante, só uma pessoa caminhava, indiferente a tudo. Então liguei a TV e comecei a entender o sucedido. 

Epílogo
Daquele 8 de julho em diante, foi como se o caldeirão de mazelas que afligiam o Brasil tivesse sido destampado e, pelo odor, todos se dessem conta de que algo muito pouco apetecedor estava sobre o fogo. Siderado pelas operações policiais que se acelerariam dali em diante, o Brasil ainda enfrentou uma eleição fadada a grande desastre eleitoral que, tempos mais tarde, cassariam o mandato da pior presidente da história republicana. Para quem viaja ao exterior com alguma frequência, ficou patente que as pessoas evitavam falar de futebol e do país. Era como se ambos os temas estivessem entrelaçados e ninguém quisesse salgar chagas abertas. O narcisismo futebolístico brasileiro levou merecida sova e, pensando bem, há de ter tido um efeito pedagógico sobre milhões.

A imagem que ficou foi a do desespero de um menino chorando, que não acredita até hoje no massacre a que assistiu. No fundo, venceu o melhor. Vamos ver se nesta terça-feira teremos um desempenho à altura de nossas cores. Sem soberba. E sabendo que é só um jogo, como diz o amigo Claus Koch. Nossas batalhas de verdade, são outras e se dão em terrenos mais nevrálgicos. Mas essa já é outra história.


leia também

Os tais 7x1 - Mal podia imaginar o que me reservavam aqueles próximos 170 minutos no ar

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: